Política e Resenha

ARTIGO – Malafaia, Bolsonaro e o crime de lesa-pátria: a democracia no fio da navalha

 

 

 

(Padre Carlos)

O Brasil assistiu nesta quarta-feira (20) a mais um capítulo que expõe a gravidade da crise política em que nos encontramos. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou busca e apreensão contra o pastor Silas Malafaia, um dos mais fiéis apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. A Polícia Federal cumpriu a medida no Aeroporto do Galeão, no Rio de Janeiro, onde o celular do pastor foi apreendido.

A decisão é contundente. Malafaia foi apontado pela Procuradoria-Geral da República como “orientador e auxiliar das ações de coação” promovidas por Bolsonaro e pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Além da apreensão de seus aparelhos, ele está proibido de deixar o país, teve os passaportes cancelados e está impedido de manter contato com outros investigados na suposta tentativa de golpe de Estado.

O que mais chama a atenção é a análise da Polícia Federal sobre os diálogos entre Jair Bolsonaro e Silas Malafaia, iniciados em 9 de julho, data que coincide com o anúncio das tarifas impostas ao Brasil pelos Estados Unidos. Segundo a decisão, há “fortes indícios de participação de Silas Malafaia na empreitada criminosa, de maneira dolosa e com unidade de desígnios” com o ex-presidente e seu filho. O pastor, de acordo com o relatório, vinha atuando “de forma livre e consciente, na definição de estratégias de coação, difusão de narrativas inverídicas e direcionamento de ações coordenadas”, cujo objetivo era coagir ministros da cúpula do Judiciário para impedir decisões contrárias aos interesses ilícitos do grupo.

Este caso revela mais do que a exposição de um líder religioso: mostra a inédita e perigosa forma de atuação da extrema-direita brasileira. Diferente do Estado Novo de Getúlio Vargas, do Integralismo dos anos 1930, do golpe militar de 1964 e do AI-5 de 1968, o bolsonarismo não se ancora em um projeto nacionalista nem em uma visão estratégica de Estado. Ao contrário, aposta na corrosão institucional e no uso da fé como arma política.

A acusação de crime de lesa-pátria que paira sobre Bolsonaro e seus aliados é, portanto, mais do que retórica. Trata-se de reconhecer que estamos diante de ações que colocaram em risco a soberania do país e a própria sobrevivência da democracia.

O que está em jogo não é apenas a biografia de um pastor midiático, mas o futuro da República. Permitir que esses ataques ao STF, ao TSE e às instituições passem impunes seria repetir os erros históricos que já abriram caminho para regimes de exceção.

O verdadeiro patriotismo não se mede por gritos nas ruas, nem pela manipulação da fé, mas pela defesa da Constituição, da democracia e das instituições republicanas. O Brasil precisa aprender com sua história para não repeti-la.