(Padre Carlos)
Há ditados que atravessam gerações como espelhos da cultura popular. Um deles é o conhecido: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”. À primeira vista, ele parece apenas um lembrete pragmático de que a vida é feita de hierarquias e que a prudência manda obedecer a quem detém o poder. Mas, por trás da aparente simplicidade, esse ditado guarda uma verdade incômoda: a naturalização de relações assimétricas onde a obediência não é fruto da razão, mas do medo das consequências.
No Brasil, esse ditado soa ainda mais cruel porque, muitas vezes, quem “manda” não o faz por mérito ou legitimidade moral, mas pelo peso das circunstâncias políticas, jurídicas ou financeiras. E quem “obedece” o faz não por convicção, mas porque sabe que enfrentar os donos do poder pode custar caro. Como diz o povo, “não sou doido” — e, sem dinheiro para bancar advogados, o cidadão comum aprende a rir da própria impotência.
É aí que entra a genialidade de José Simão com a expressão: “o Brasil é o país da piada pronta”. Não precisamos inventar sátiras: os acontecimentos cotidianos já se encarregam de oferecer enredos tragicômicos. O poder aqui, em muitas ocasiões, se comporta como uma caricatura de si mesmo, exigindo respeito absoluto ao mesmo tempo em que se esquece de que autoridade de verdade se constrói pela integridade, não pelo grito.
O episódio recente em que um político aciona a Justiça pedindo prisão e indenização porque foi chamado de “ladrão” não é apenas uma disputa judicial; é também um retrato fiel desse país de contrastes. Se de um lado está o cidadão que fala mais do que a prudência recomenda, do outro está a máquina do poder que transforma uma palavra atravessada em questão de Estado. E nós, plateia perplexa, rimos nervosos porque sabemos que essa peça não é apenas comédia: é tragédia anunciada.
No fundo, o ditado permanece atual, mas com uma nuance perversa: manda quem pode, obedece quem não tem escolha. E, enquanto isso, a democracia corre o risco de se tornar uma grande anedota em que o povo, sempre o povo, é o personagem mais ridicularizado.
O Brasil, de fato, continua sendo o país da piada pronta. Só que, às vezes, a piada perde a graça e nos lembra que rir também pode ser um ato de resistência.





