
Padre Carlos
Um dos grandes problemas da esquerda brasileira, e isso precisa ser dito com honestidade intelectual e compromisso histórico, é a ausência de uma cultura sólida de preservação da memória. A esquerda brasileira, muitas vezes absorvida pelas urgências do presente, esquece de olhar para trás e reconhecer aqueles companheiros que ajudaram a construir o partido, formular projetos e enfrentar momentos decisivos da história nacional e latino-americana. Sem memória política não há identidade; sem identidade não há projeto transformador.
O Partido dos Trabalhadores, em especial, precisa ser lembrado de que a memória institucional é um dos pilares que dão sentido ao seu projeto histórico. Preservar a memória partidária é manter o partido vivo, fortalecer a militância, formar politicamente as novas gerações e oferecer referências éticas e estratégicas em um tempo marcado pelo esquecimento e pela desinformação. Quando resgatamos a memória de um companheiro, afirmamos sua importância na construção do partido e reconhecemos suas contribuições na história recente do Brasil e da América Latina.
É nesse contexto que se impõe recordar Marco Aurélio Garcia, um dos mais importantes quadros políticos da esquerda brasileira e um dos principais formuladores da Política Externa Ativa e Altiva dos governos do PT. Ao nomeá-lo assessor especial da Presidência da República, o presidente Lula criava as condições políticas para uma inflexão histórica na política externa brasileira, baseada na integração latino-americana, na articulação Sul-Sul e na aproximação estratégica com a África e a Ásia.
Marco Aurélio Garcia tinha plena consciência de que a América Latina sempre esteve sob pressão permanente dos Estados Unidos, seja por meio de intervenções diretas, seja por mecanismos econômicos, diplomáticos e políticos de subordinação. Compreendia que a soberania dos países latino-americanos só poderia ser defendida a partir da construção de blocos regionais fortes, do fortalecimento do multilateralismo e da criação de articulações contra-hegemônicas, como o BRICS e o IBAS, vistos por ele como instrumentos estratégicos para a reforma da ordem internacional vigente.
A agressão sistemática à soberania da Venezuela é um dos exemplos mais evidentes dessa política intervencionista dos Estados Unidos na América Latina. Sanções econômicas, bloqueios financeiros, tentativas de isolamento diplomático e ameaças constantes à autodeterminação de um povo revelam a permanência de uma lógica imperial que insiste em tratar o continente como quintal geopolítico. Foi justamente nesses momentos de maior tensão que a presença firme, lúcida e estrategicamente habilidosa de Marco Aurélio Garcia se fez decisiva, defendendo o diálogo, a soberania dos Estados e o princípio da não intervenção.
A perda de protagonismo internacional do Brasil durante os governos Temer e Bolsonaro deixou ainda mais evidente a importância de Marco Aurélio Garcia. A política externa de baixa intensidade, alinhada automaticamente aos interesses dos Estados Unidos, significou um retrocesso histórico para a integração da América Latina e para a soberania nacional. O vazio deixado por um estrategista com profundo conhecimento acumulado na Secretaria de Relações Internacionais do PT tornou-se visível justamente quando o Brasil deixou de exercer um papel ativo na defesa dos países latino-americanos frente às agressões externas.
Tive a oportunidade de conhecer Marco Aurélio Garcia pessoalmente, em uma palestra em Campinas, na década de oitenta. Professor universitário, intelectual brilhante, profundo conhecedor da história das esquerdas brasileiras e latino-americanas, militante experiente, fundador do PT e secretário de Relações Internacionais do partido por muitos anos. Acompanhei sua trajetória ao longo das décadas e posso afirmar que teve papel central na formulação e na prática da política externa brasileira durante os dois mandatos de Lula e, ainda que com menor intensidade, no governo Dilma.
Não é por acaso que foi justamente no campo da política externa que os governos petistas mais se aproximaram das teses históricas defendidas pelo partido desde os anos 1980: soberania nacional, integração latino-americana, justiça social e enfrentamento das desigualdades globais. Marco Aurélio Garcia foi um dos principais responsáveis por transformar essas teses em política de Estado.
Passados os anos de sua morte, torna-se cada vez mais clara a falta que faz sua capacidade de liderança, sua habilidade política e sua visão estratégica diante das crescentes agressões sofridas pela América Latina. Faz falta sua inteligência crítica, seu compromisso com a democracia, com a justiça social e com a soberania dos povos. Faz falta, sobretudo, a memória viva de suas lutas e de seus projetos para o Brasil e para todo o continente latino-americano.
Uma esquerda que não preserva a memória de seus quadros corre o risco de se fragilizar diante de um cenário internacional cada vez mais hostil. Lembrar Marco Aurélio Garcia é um ato político, pedagógico e histórico. É reafirmar que a soberania nacional, a integração da América Latina e a resistência às agressões imperialistas continuam sendo pilares centrais de qualquer projeto sério de transformação social.
Marco Aurélio Garcia?
Presente!




