Política e Resenha

ARTIGO – “Mesmo velha, gagá”: O Último Desejo de Preta Gil (Padre Carlos)

 

 

Poucos artistas brasileiros conseguiram, em vida, carregar com tanta dignidade a palavra liberdade quanto Preta Gil. E poucos, na morte, conseguiram celebrar a própria travessia com tanto amor à vida. A cantora, atriz, apresentadora e ícone da diversidade nos deixou aos 50 anos, vítima de um câncer que enfrentou com uma força comovente e uma franqueza ainda mais rara. Mas não sem antes desenhar, com traços firmes e bem-humorados, o roteiro de sua despedida.

Há dez anos, numa entrevista despretensiosa ao canal Põe na Roda, Preta disse com a leveza que sempre a acompanhou: “Mesmo velha, gagá, me bota em cima do trio!” Referia-se, claro, ao seu funeral. Não queria flores frias e silêncios engasgados. Queria axé, batuque, alegria. Queria ser lembrada como viveu: cercada de música, de amigos e da energia que só o povo brasileiro é capaz de gerar quando se despede dos seus com festa.

Esse pedido, que poderia parecer inusitado aos desavisados, é profundamente coerente com a mulher que Preta foi: intensa, generosa, corajosa. Foi filha de Gilberto Gil, sim, mas não se escondeu atrás do sobrenome. Cantou o corpo, a liberdade, o amor em todas as suas formas. Enfrentou o preconceito, a gordofobia, o machismo e as tentativas constantes de silenciá-la – tudo isso sem abrir mão do brilho, do humor e da dignidade.

Nos últimos dois anos, Preta travou a batalha mais dura: o enfrentamento de um câncer agressivo que a levou a cirurgias, tratamentos experimentais e à adoção de uma bolsa de colostomia definitiva. Ela, que sempre fez de si um palco de representação, expôs esse processo com franqueza e sem vitimismo. Mostrou nas redes que seu corpo era casa sagrada, mesmo ferido. Disse ao mundo que viver vale a pena, mesmo quando é difícil respirar.

E foi nessa trilha que seguiu até o fim. Em maio deste ano, partiu para os Estados Unidos em busca de tratamentos que já não estavam disponíveis no Brasil. Sua fé na vida era mais forte que a lógica médica. “Tem muita coisa pra fazer aqui nessa vida. Eu me recuso a aceitar que se findou pra mim agora”, escreveu. Palavras que, agora, ecoam com ainda mais força.

Mas findou. E mesmo assim, não findou. Porque Preta pediu que não houvesse lamento, mas sim trio elétrico. Que sua morte não fosse notícia de tragédia, mas de celebração. E que uma amiga famosa – não importa quem, pois o afeto é quem comanda o palco – conduzisse esse cortejo como se conduz um Carnaval.

Esse desejo – de ser levada pela multidão, com música e amor – é mais que uma escolha pessoal. É um manifesto. Num Brasil que tantas vezes criminaliza a alegria, Preta nos ensina que até a morte pode ser celebrada com beleza. Que chorar é legítimo, mas cantar também é. Que dançar com os pés no chão, mesmo doendo, é uma forma de oração.

Talvez um dia todos nós devêssemos escrever, como ela, o roteiro do nosso adeus. Não por vaidade, mas por sabedoria. Para que a nossa memória fique menos à mercê do acaso e mais à altura daquilo que amamos.

Preta Gil, mesmo velha, mesmo gagá, será colocada em cima do trio. Não para um último show, mas para um eterno desfile. E nós, aqui embaixo, aplaudiremos de pé. Porque ela viveu como poucos: com intensidade, com coragem, com verdade.

E agora, canta o céu. Mas o chão ainda ecoa seu batuque.