
(Padre Carlos)
Há gestos que são como preces mudas, manifestações silenciosas de uma alma que clama por sentido. Em Santa Catarina, uma mulher levou um bebê reborn para vacinar. Não era apenas uma boneca: era o eco de um desejo antigo, o reflexo de uma maternidade que insiste em existir, mesmo quando não lhe é permitido florescer.
As redes sociais riram. Transformaram o gesto em piada, em escárnio. É mais fácil rir do que sentir. Mais confortável zombar do que reconhecer-se no espelho do afeto não correspondido. No entanto, por trás daquele carrinho empurrado com cuidado, pulsa a alma de alguém que não desiste de amar. Quantos de nós já não desejamos dar colo mesmo sem ter a quem?
Aquela mulher — tão ridicularizada — apenas deu forma ao que milhões sentem em silêncio. Há uma ternura represada em muitas vidas. Um instinto de acolher, de proteger, de ensinar… mas que bate em portas fechadas. Às vezes pela biologia, às vezes pela vida. A boneca, inerte, torna-se confidente, alívio, companhia. É um amor que se inventa para não morrer sufocado.
Ser mãe vai além do cordão umbilical. Há mulheres que geram cuidado em cada gesto, mesmo que nunca tenham dado à luz. Há maternidades emocionais, espirituais, sociais. E essa mulher, ao dar vacina ao seu reborn, exercitou uma forma de amar legítima, pura, necessária.
Vivemos tempos em que se multiplicam os vazios. A tecnologia nos conecta, mas não nos abraça. A rotina nos engole, mas não nos nutre. Assim, cada um de nós cria substitutos emocionais — sejam animais, personagens, objetos ou até ideias — para suportar a ausência do que é essencial. Essa mulher apenas expôs, com coragem, o que muitos escondem com vergonha.
Naquele posto de saúde, não houve delírio. Houve coragem. Ela nos mostrou que cuidar, mesmo do que não respira, é um jeito de manter a humanidade viva. Seu gesto não foi loucura, foi lucidez. Em um mundo onde tantos se tornam duros, ela escolheu ser suave.
Antes de rirmos dela, deveríamos olhar para dentro. Quantas vezes já criamos nossos próprios reborns emocionais? Quantas vezes nutrimos lembranças, sonhos, relações passadas, só para manter acesa a chama de quem somos?
Aquela mulher não estava em fuga da realidade. Estava, talvez, tentando salvar-se dela.




