Política e Resenha

ARTIGO – Natal, Fé e Esperança em Tempos Difíceis: Frei Gilson e o Canto Espiritual que Salvador Precisa Ouvir

 

 

 

(Padre Carlos)

O Natal, quando vivido em sua essência, não é apenas uma data no calendário nem um rito repetido ano após ano. Ele é, antes de tudo, um grito silencioso de esperança que insiste em sobreviver mesmo quando a realidade parece sufocá-la. Em tempos de violência urbana, desigualdade social, desesperança política e crise de valores, a notícia de um show gratuito de Frei Gilson em Salvador, no dia 25 de dezembro, ultrapassa o campo do entretenimento religioso e se inscreve como um acontecimento simbólico, espiritual e profundamente humano.

A Arena O Canto da Cidade, na Boca do Rio, será mais do que um espaço de evento. Tornar-se-á, ainda que por algumas horas, um grande presépio urbano, onde milhares de pessoas se reunirão não apenas para ouvir músicas ou assistir a uma apresentação, mas para partilhar fé, silêncio interior e sentido de vida. A presença de Frei Gilson, fenômeno religioso nas redes sociais e referência para uma geração conectada, revela algo essencial: o Evangelho continua encontrando novos caminhos para alcançar corações feridos e almas cansadas.

O fato de o evento começar com uma missa de Natal, presidida por dom Gilvan Pereira, bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador, é um detalhe que não pode ser ignorado. Em uma sociedade cada vez mais apressada, onde até o sagrado corre o risco de virar espetáculo vazio, a centralidade da Eucaristia reafirma o verdadeiro sentido do Natal cristão: Deus que se faz próximo, que entra na história, que se faz pão partilhado e presença real. A música, nesse contexto, não é fim, mas meio; não é distração, mas linguagem da fé.

Frei Gilson representa um novo rosto da evangelização no Brasil. Sua trajetória, marcada pelo uso intenso das redes sociais, pelas orações na madrugada durante a pandemia e pela linguagem simples, direta e profundamente espiritual, explica por que tantos jovens, famílias e pessoas afastadas da Igreja se sentem novamente interpeladas. Em um mundo barulhento, ele fala de silêncio; em uma cultura da ansiedade, propõe confiança; em uma sociedade ferida, anuncia que Deus ainda sonha com o ser humano.

Não é irrelevante que esse grande evento natalino conte com o apoio da Prefeitura de Salvador e com uma estrutura semelhante à de grandes espetáculos populares. Isso revela que a fé, quando bem compreendida, não é inimiga da cidade, da cultura nem do espaço público. Pelo contrário: ela pode ser fator de pacificação social, de encontro, de reconstrução de vínculos. Em uma Salvador marcada por contrastes brutais, violência crescente e medo cotidiano, reunir milhares de pessoas para cantar, rezar e celebrar o Natal é, também, um ato político no sentido mais nobre da palavra: cuidar da vida coletiva.

As canções que compõem o repertório de Frei Gilson — “Deixa Deus Sonhar em Ti”, “Eu Seguirei”, “Tu És o Centro” — dialogam diretamente com a alma contemporânea. Elas falam de entrega, propósito e centralidade espiritual, valores cada vez mais raros em uma sociedade que idolatra o consumo, o sucesso imediato e a performance. Ouvi-las no dia 25 de dezembro, em praça pública, é um lembrete poderoso de que o Natal não é apenas luzes, presentes e mesas fartas, mas decisão interior, conversão e esperança ativa.

Em meio a tantas notícias duras, tragédias anunciadas e crises institucionais, o Natal celebrado com fé e música em Salvador surge como um sopro de humanidade. Não resolve todos os problemas, não apaga as dores do mundo, mas aponta uma direção. E, em tempos de escuridão, apontar caminhos já é um gesto profundamente revolucionário.

Que o canto de Frei Gilson ecoe para além da Arena O Canto da Cidade. Que ele alcance os becos, as periferias, os corações cansados, os que perderam a fé na política, nas instituições e até em Deus. Porque, no fundo, o Natal continua sendo isso: Deus insistindo em nascer onde muitos já desistiram de acreditar.