Política e Resenha

ARTIGO – Nossa esquerda preconceituosa

 

 

(Padre Carlos)

Quem merece ser chorado pela História?
Sussurro isso ao leitor, quase em confidência, porque a resposta revela mais sobre nós do que gostaríamos de admitir.

Peço licença para começar com Santo Agostinho, que atravessou séculos para nos lembrar: “Teus pecados são a tua tristeza, deixa que a santidade seja a tua alegria.” Há pecados que não sangram nas mãos, mas pesam na consciência coletiva. Um deles atende pelo nome de preconceito de classe, travestido de silêncio seletivo, inclusive — ou sobretudo — dentro da esquerda brasileira.

Em 1976, Manoel Fiel Filho, operário metalúrgico da Mooca, foi sequestrado pelo DOI-Codi, torturado e assassinado. Como Vladimir Herzog, morto meses antes no mesmo porão da ditadura, também “cometeu suicídio”, segundo a versão oficial. A mentira era idêntica. O local, o método e o cinismo, também. O que mudou foi a reação.

Herzog, jornalista, intelectual, homem da palavra, virou símbolo nacional. Manoel Fiel, operário, homem da fábrica, virou nota de rodapé.
E aqui está o nó que precisamos desatar.

A pergunta incômoda — e necessária — é simples: por que a morte de um operário não provocou a mesma comoção moral, política e midiática que a morte de um jornalista? A ditadura era a mesma. O crime, o mesmo. Mas o peso simbólico das vítimas não era.

Este texto não busca diminuir a importância de Herzog — pelo contrário. Busca ampliar o círculo da memória. Porque quando a esquerda escolhe quais mortos merecem indignação, ela trai sua própria razão de existir.

Há anos li um artigo da jornalista Camila Marciel, na Agência Brasil, que retomava o assassinato de Manoel Fiel. O espanto não estava apenas na brutalidade do crime, mas na indiferença histórica que o cercou. A esquerda “democrática”, tão vocal no caso Herzog, não demonstrou a mesma revolta diante da morte do metalúrgico. Dois pesos. Duas medidas.

Aqui reside o ponto de virada deste artigo.

A sociedade brasileira foi moldada por um preconceito de classe velado, silencioso, quase elegante. Ninguém se assume preconceituoso, mas muitos agem como tal. A esquerda, formada em grande parte por quadros oriundos da classe média e das elites intelectuais, não está imune a esse vírus. Pelo contrário: muitas vezes o reproduz com linguagem sofisticada e discurso progressista.

Basta observar a história do movimento estudantil. Já paramos para refletir por que a UNE jamais teve um presidente negro? Ou por que setores da elite nutrem um ódio visceral por Lula, não apenas pelo que ele faz, mas pelo que ele representa — um operário que ousou atravessar a fronteira simbólica do poder?

Mas deixemos o campo das hipóteses e vamos aos fatos.

Em fevereiro de 2015, em um único fim de semana, a Rondesp da Polícia Militar da Bahia matou 15 jovens negros, em operações com fortes indícios de execução. Era vingança policial. Era sangue derramado nas periferias. Era carne preta — e aqui uso a expressão com a crueza que a realidade exige — que tem pouco valor no mercado da comoção pública.

E o que fez a esquerda baiana?
Silêncio. Conveniência. Olhos fechados.

Nenhum grande ato, nenhuma ruptura política, nenhuma indignação proporcional à barbárie. Nenhum deputado disposto a comprar briga com o poder estadual. Mas bastou o mesmo governo cortar salários de grevistas — setores da elite do funcionalismo público — para o circo pegar fogo. Notas, discursos, mobilização imediata.

A pergunta se impõe, dura como pedra: isso é apenas corporativismo ou é preconceito de classe e racial?

Não se trata aqui de absolver crimes, nem de romantizar a violência. Trata-se de perguntar: se aqueles jovens mortos fossem brancos, de classe média, filhos “promissores”, o desfecho político e midiático teria sido o mesmo? A resposta, ainda que desconfortável, é conhecida por todos.

A política, dizem os experientes, é a arte de engolir sapos. Concordo. Mas há limites. Quando engolimos princípios, dignidade e vidas humanas, já não é pragmatismo — é deformação moral.

Ser de esquerda, de verdade, não é apenas defender bandeiras históricas ou repetir slogans. É sustentar um senso radical de justiça, sem distinção de classe, cor ou capital simbólico. É indignar-se com o operário e com o jornalista. Com o jovem negro da periferia e com o intelectual do centro. Sem hierarquizar dores.

Enquanto a esquerda não fizer esse exame de consciência — profundo, honesto e corajoso — continuará traindo Manoel Fiel Filho, mesmo cinquenta anos depois de seu assassinato.
E nenhuma causa que seleciona seus mortos pode, honestamente, se chamar libertadora.