Política e Resenha

ARTIGO – O 2 de Julho e a Honrosa Voz de um Interior que Não se Cala

(Padre Carlos)

O 2 de Julho é mais que uma data: é uma epifania histórica. É quando a Bahia, senhora altiva de sua própria liberdade, acende no peito do Brasil a chama mais genuína da independência. É o dia em que o povo – e não os príncipes – empunhou o facho da autonomia e fez da resistência uma festa, da coragem uma herança, da memória um dever.

Por isso, saúdo com sincero apreço e justa deferência a declaração do presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista, vereador Ivan Cordeiro (PL), que, neste 2 de Julho, não apenas homenageou os heróis da luta baiana, mas também evocou, com clareza e sentimento, a urgência de preservar a identidade regional e reavivar o compromisso com a cidadania. Em tempos de discursos vazios e homenagens protocolares, ouvir uma voz do legislativo interiorano falar de história com densidade e patriotismo é um bálsamo cívico – e, permitam-me dizer, um ato de valentia.

Quando o vereador afirma que a data “representa a vitória do povo baiano contra a dominação estrangeira” e que é momento de “reafirmar nossa identidade, nossa memória e o compromisso com a construção de um futuro melhor”, ele não repete chavões: ele traça um mapa. Um mapa de resistência cultural que aponta para os becos da história esquecida e para os horizontes de um interior que ainda luta para não ser apenas paisagem da Bahia oficial.

A memória histórica da Bahia é um tecido costurado por muitas mãos: mãos negras, indígenas, sertanejas, femininas – tantas vezes invisibilizadas. E Vitória da Conquista, que foi campo de tropeiros e semente de civilização no semiárido, carrega nos seus casarios, feiras e escolas, esse legado vivo, mas ameaçado pela erosão do tempo e do desinteresse político.

Por isso, a fala de Ivan Cordeiro é mais que um tributo: é um gesto de cidadania ativa. Quando o Legislativo municipal declara seu “compromisso com medidas voltadas à valorização da história regional”, é como se desse voz àquelas figuras anônimas que um dia pegaram em armas, tambores ou penas para defender o que chamavam, com orgulho, de pátria baiana.

Mas que esse compromisso não seja apenas comemorativo. Que se traduza em projetos de lei, em incentivo à cultura, em preservação de arquivos, em fomento à educação patrimonial. Que os estudantes de Conquista não saibam apenas quem foi Pedro Álvares Cabral, mas conheçam Maria Quitéria, Joana Angélica, o Caboclo, a heroína Mari Floripa, e os nomes – sim, os nomes – dos que tombaram nos sertões em defesa da liberdade.

Ao vereador Ivan Cordeiro, meus cumprimentos pela coragem de tocar no essencial: o pertencimento. É fácil legislar sobre o cotidiano. Difícil – e nobre – é lembrar o passado com olhos voltados para o futuro. Que sua fala inspire não só os colegas de plenário, mas também os educadores, os artistas, os estudantes, os líderes comunitários que fazem da história um campo vivo e fértil.

No mais, que este 2 de Julho seja mais que um feriado. Que seja um apelo. Um chamado para que o interior da Bahia – e Vitória da Conquista, com sua altivez – não seja apenas espectador da história, mas narrador. Com memória, coragem e voz própria. Porque, afinal, liberdade que se cala… é liberdade ameaçada.