Política e Resenha

ARTIGO – O Amor Não Cabe nas Palavras

 

 

(Padre Carlos)

Há temas que nos perseguem pela vida inteira como uma pergunta sem ponto final. O amor é um deles. Queremos explicá-lo, enquadrá-lo, domesticá-lo em conceitos claros, como se fosse possível colocar o vento dentro de uma garrafa. José Saramago, com a lucidez inquietante que o consagrou como um dos maiores escritores da literatura contemporânea, nos lembra de algo desconcertante: o amor não foi feito para ser explicado. Foi feito para ser vivido.

Toda a gente quer que se fale do amor. Queremos definições, fórmulas, respostas seguras. Talvez na esperança secreta de que alguém, um dia, opere o milagre de dizer exatamente o que ele é. Mas o amor escapa. Sempre escapa. Camões tentou, no seu célebre soneto, e terminou confessando a própria impotência: “amor é fogo que arde sem se ver”. Arde, mas não se deixa tocar. Queima, mas não se mostra. Está e não está. É e não é.

Saramago não nega que o amor seja um sentimento. Ele apenas recusa a ilusão de que sentimentos possam ser totalmente capturados pelas palavras. Podemos analisá-los, descrevê-los, cercá-los de explicações psicológicas, filosóficas ou literárias. Ainda assim, sobra sempre algo. Um resto invisível. Um silêncio que resiste. É justamente aí que mora o amor: no território do indizível, do inefável, daquilo que pertence a uma categoria que a linguagem não alcança.

Talvez por isso o amor seja tão poderoso e, ao mesmo tempo, tão frágil. Ele não se sustenta em discursos, mas em gestos. Não se prova em teorias, mas em presença. Não vive nos textos que escrevemos sobre ele, mas nos vazios que sentimos quando ele falta. Amor não é tese; é experiência. Não é explicação; é travessia.

Saramago viveu essa verdade até o fim. Casou-se três vezes. Amou, perdeu, recomeçou. Encontrou em Pilar del Río, já aos 66 anos, não uma definição tardia do amor, mas a prova de que ele não obedece ao calendário, nem à lógica, nem às expectativas sociais. O amor acontece quando quer. E quando acontece, transforma.

Num tempo em que tudo precisa ser exposto, nomeado, classificado e monetizado, o amor resiste como um ato de rebeldia. Ele não cabe nos algoritmos, não se deixa reduzir a frases prontas, não aceita ser transformado em slogan. Talvez por isso incomode tanto. Vivemos numa sociedade obcecada por controle, e o amor é, por natureza, descontrole.

Falar de amor, portanto, é aceitar o risco do fracasso. É saber que nenhuma palavra será suficiente. Mas ainda assim falamos. Falamos porque somos humanos. Falamos porque o amor, mesmo inalcançável, nos chama. E ao nos chamar, nos revela algo essencial: não somos feitos apenas para entender o mundo, mas para senti-lo.

No fim, Saramago nos entrega uma lição simples e profunda, dessas que só os grandes escritores conseguem formular sem pompa: o amor não se explica. O amor se vive. E quem tenta aprisioná-lo em palavras corre o risco de perder justamente aquilo que o torna mais verdadeiro.