
(Padre Carlos)
Eu te olhava e pensava: será o grande amor da minha vida ou a dor mais forte que eu irei sentir? Mas você foi os dois. E talvez seja assim em toda espécie que, teimosa, decide amar apenas uma vez — mesmo quando o mundo oferece mil rotas de fuga.
A lontra-do-rio sabe disso. Ela escolhe um par e com ele divide a correnteza, o abrigo, o peixe, a vigília das noites frias. Os pesquisadores dizem que a monogamia melhora as chances de sobrevivência dos filhotes, mas eu prefiro pensar que ela apenas não suporta a ideia de reaprender o amor do zero.
O cavalo-marinho, tão frágil e tão silencioso, entrega a barriga ao parceiro. É o macho quem recebe os ovos. Há algo de comovente em cuidar de uma vida que não nasceu em si — como se a fidelidade fosse também adoção, renúncia e entrega. Talvez amar seja isso: carregar o outro dentro de si, ainda que não pertença ao nosso sangue.
Os cisnes sabem amar com elegância. Deslizam no lago com os pescoços entrelaçados, como se o mundo inteiro não existisse além daquela dança. Um único par para a vida toda, mesmo que existam tempestades, invernos, gelo e solidão. Dizem que eles retornam sempre ao mesmo ninho. Talvez por isso os poetas os invejem.
O albatroz atravessa oceanos imensos, fica anos longe do parceiro — e mesmo assim volta. A ciência explica: aprendizado de voo, rotas migratórias, período de maturação. Mas a poesia responde: quando se encontra o amor de verdade, nenhuma distância muda o rumo do retorno.
O ganso-do-Canadá migra com disciplina militar, mas o coração é devoto. Quando o par é ferido ou morto, muitos se tornam viúvos para sempre. Não procuram outro. Dormem sozinhos. Vagam sozinhos. Talvez porque substituição não cure ausência.
O papagaio-africano-cinzento vive décadas — e escolhe um só. Passa a vida repetindo o mesmo canto ao mesmo ouvinte. Como quem jura: vou te contar todos os meus dias até o último.
Eu te olhava e sabia, ainda que não quisesse admitir: o amor que escolhe um só nunca sai ileso. Ele é bênção e ferida, cura e cicatriz.
Como disse o poeta:
“Você foi o maior dos meus casos
De todos os abraços, o que eu nunca esqueci
Você foi dos amores que eu tive
O mais complicado e o mais simples pra mim
Você foi o melhor dos meus erros
A mais estranha história que alguém já escreveu”
Talvez nós, primatas de coração inquieto, estejamos mais próximos dos cisnes e dos albatrozes do que supomos. Fingimos desinteresse, autonomia, desapego — mas basta um olhar certo para que decidamos, silenciosamente, que será aquela pessoa, e nenhuma outra.
E mesmo que o amor acabe, ou que o destino leve cada um para um lado, resta em nós o instinto dos animais monogâmicos: só amar de verdade uma vez.
Só sobreviver porque alguém existiu.
A vida segue — mas o coração permanece no mesmo ninho.




