
(Padre Carlos)
Quando um senador da República, amparado pela sombra do mandato e pelo sobrenome que carrega, se arvora contra um ministro do Supremo Tribunal Federal, insinuando que ele seja um “terrorista”, não estamos diante apenas de uma declaração infeliz. Estamos, sim, diante de um atentado verbal contra a democracia e contra a própria Constituição que o senador jurou respeitar.
A democracia brasileira já suportou ataques demais. Tentativas de golpe, manipulação das massas, desinformação em larga escala e agora, de forma ainda mais grave, a inversão dos papéis: quem foi condenado por atentar contra a ordem democrática se coloca na condição de vítima, enquanto quem defende a lei passa a ser chamado de inimigo. Até quando aceitaremos esse teatro grotesco em silêncio?
Flávio Bolsonaro, ao pedir uma “trégua” a Alexandre de Moraes, insinua que estamos numa guerra. E talvez, em sua cabeça, estejamos mesmo: a guerra contra as instituições, contra a justiça e contra a verdade. Mas o que ele chama de perseguição nada mais é do que o cumprimento da lei. A condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro não se deu por perseguição política, mas por tentativa de golpe de Estado. Não há como florear isso.
Chamar um ministro do STF de “terrorista” não é apenas uma ofensa pessoal, é um ataque institucional. É a deslegitimação de um Poder da República. É brincar com fogo, em um país que ainda sente as chamas do autoritarismo recente.
O silêncio diante desse tipo de retórica não é neutralidade, é cumplicidade. E a democracia não se sustenta com covardias. É preciso que o Senado, a sociedade civil e todas as instituições democráticas deixem claro que não se pode transformar a tribuna política em palco para agredir o Estado de Direito.
Até quando ficaremos calados? Até quando vamos normalizar o absurdo? A democracia não é eterna por decreto: ela precisa ser defendida diariamente, inclusive contra aqueles que, paradoxalmente, foram eleitos sob seu manto, mas trabalham para destruí-la.




