Política e Resenha

ARTIGO – O Brasil Não É o Panamá: Entre Patentes, Etanol e as Jogadas de Trump

 

(Padre Carlos)

É uma nova temporada da velha série chamada “Guerra Comercial”, com os mesmos personagens e as mesmas ambições, mas com um roteiro mais ousado: desta vez, Trump volta ao palco ameaçando taxar em até 50% os produtos brasileiros, a partir de 1º de agosto. E, no centro desse turbilhão, está o Brasil – que, segundo fontes do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), prepara um arsenal de retaliações que vai de patentes farmacêuticas ao etanol, das terras raras aos jogos geopolíticos.

O jogo começou. E o Brasil precisa mostrar que aprendeu as regras.

Não se trata de bravatas. O que está em jogo é mais do que o comércio bilateral. É o respeito à soberania e o recado claro de que “não estamos falando com o Panamá”, como disse um dos negociadores brasileiros. O Brasil hoje não pode e não deve se curvar a imposições unilaterais de qualquer potência — ainda que essa potência atenda pelo nome de Donald Trump.

As cartas sobre a mesa:

A primeira reação brasileira à possível taxação norte-americana mira diretamente no coração do sistema de lucros dos Estados Unidos: as patentes. Trata-se da possibilidade de retaliação via Propriedade Intelectual, quebrando, limitando ou encurtando os prazos de proteção de produtos americanos no Brasil. Isso incluiria, por exemplo, medicamentos hoje protegidos e cujos royalties oneram pesadamente o SUS.

Um simples movimento nessa direção — como o licenciamento compulsório — já seria um gesto de soberania estratégica. Afinal, por que o Brasil deveria bancar remédios caríssimos, quando pode produzir genéricos de qualidade internamente, como já faz em alguns casos?

E isso sem contar os royalties pagos até sobre fertilizantes. Sim, até nisso os EUA lucram. Só com essa retaliação o Brasil já acena com uma mudança de paradigma: menos submissão, mais pragmatismo.

Vão-se os anéis, ficam os dedos

Mas há outra carta — e talvez mais eficaz: a diplomacia estratégica das concessões calculadas. É a velha tática japonesa, repetida agora pela União Europeia: entregar algo que parece valioso (os “anéis”) para preservar o essencial (os “dedos”).

Neste caso, os setores que estão no radar são o etanol de milho americano (hoje taxado pesadamente pelo Brasil), as terras raras e a madeira tropical. Pequenos acenos nessas áreas podem sinalizar disposição para negociar, forçando Trump a adiar ou suspender tarifas — ao menos por 30, 60 ou 90 dias. Tempo suficiente para redefinir a mesa de negociação.

O problema é que cada gesto, cada recuo ou avanço tem custo político e econômico. A indústria farmacêutica nacional, por exemplo, está anos-luz atrás das grandes multinacionais. Se o Brasil quiser bancar essa briga nas patentes, precisará investir em autossuficiência tecnológica, coisa que não se faz da noite para o dia.

Bolsonaro: a moeda de troca impossível

Nos bastidores, surge ainda um elemento inesperado, mas politicamente valioso para Trump: Jair Bolsonaro. Segundo fontes próximas às negociações, Trump usa o ex-presidente brasileiro como um trunfo político para arrancar concessões do Brasil. Sabe que é impossível o Supremo arquivar os processos contra Bolsonaro, mas mesmo assim o ex-capitão é usado como “pedida impossível” — daquelas que se colocam na mesa apenas para facilitar as “pedidas possíveis”.

Conclusão: é hora de jogar com inteligência

O Brasil está diante de um teste de maturidade geopolítica. A resposta precisa ser dura, mas inteligente. Assertiva, mas calibrada. É hora de deixar claro que nossa diplomacia comercial não é capacho, nem alvo fácil. O jogo é bruto, mas o Brasil tem cartas fortes na manga.

E uma delas, talvez a mais importante, é justamente mostrar que não é mais o país que assina sem ler, que cede sem barganhar, que engole sem mastigar.

Hoje, o Brasil negocia de igual para igual. E como disse o negociador do MDIC: eles têm que saber que não estão falando com o Panamá.