
(Padre Carlos)
É impressionante como obras públicas em Vitória da Conquista seguem um calendário “divino”: não o calendário fiscal, não o calendário das necessidades da população — mas o calendário eleitoral. Por meses, anos, uma obra fica lá, abandonada, largada como sucata urbana, servindo apenas para estatísticas de acidentes e manchetes trágicas. Mas é só o cheiro de campanha política soprar que, num passe de mágica, máquinas, operários e sorrisos cinematográficos surgem como se a cidade fosse um estúdio de filme pré-eleitoral.
O exemplo mais recente dispensa esforço: a tão esperada pavimentação da Avenida Brasil, ligando a Urbis I à Avenida Presidente Vargas. Durante longos anos, o povo viu a obra parada, servindo de armadilha para motoristas e pedestres, uma verdadeira cicatriz da falta de infraestrutura urbana. A imprensa denunciou, moradores imploraram, famílias choraram diante das tragédias — e o tal deputado local? Mutismo. Silêncio ensurdecedor digno de quem acredita que o povo é cego, surdo e manso.
Agora que a obra está quase concluída, pronto: lá vem o ilustre representante do povo, sorridente, posando para foto, filmando para redes sociais, distribuindo sorrisos e promessas, como se ele tivesse sido o herói desse asfalto tardio. É o manual perfeito do oportunismo eleitoral: não moveu um dedo quando vidas estavam sendo ceifadas, mas aparece para ser o padrinho da obra quando os holofotes começam a acender.
E, como sempre, a legenda é previsível: “Mais uma conquista para nosso povo”. Conquista? Para quem? Porque quem perdeu familiares e amigos na via da morte nunca verá selfie apagar a dor. A avenida poderia estar pronta há três anos — TRÊS. Mas só interessou quando passou a render voto.
O povo está cansado, deputado. A paciência acabou. Essa política velha — a de inaugurar obras públicas em ano eleitoral, a de ressuscitar projetos prestes a virar música de campanha, a de transformar máquina pública em outdoor ambulante — precisa ser enterrada. A cidade já ultrapassou esse tipo de teatro, mesmo que alguns políticos ainda pensem que Vitória da Conquista vive na década de 1990.
E já que Vossa Excelência gosta tanto de lutar, que tal lutar pelo que realmente importa? Se quer mostrar força, lute para que a concessão da Rio–Bahia saia do papel, já que o governo Federal resolveu adiá-la mais uma vez, condenando a cidade a mais um ano de caos. Lute por viadutos e passarelas para salvar vidas na BR que corta a cidade como roleta russa. Lute pela duplicação da Rio–Bahia, pela proteção do cidadão, pela dignidade urbana que faz a diferença entre viver e morrer.
Enfim, deputado, lute por quem vota — e não por quem curte selfie de obra pronta. O povo não é ingênuo. O povo está atento. E desta vez, a avenida não leva ao esquecimento: leva à memória eleitoral de uma cidade que aprendeu a identificar falsos heróis.




