(Padre Carlos)
Há dias em que a política brasileira parece um laboratório de absurdos. E há outros — como esta segunda-feira — em que ela simplesmente escancara, sem pudor e sem maquiar nada, como funciona o subterrâneo do poder no Rio de Janeiro. A revogação da prisão do presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacelar, foi exatamente isso: um espetáculo onde a lei, a lógica e a dignidade foram reduzidas a meras figuras decorativas.
A Constituição é clara. Quando um deputado estadual é preso, cabe à Assembleia respectiva decidir se a prisão permanece ou não. É a regra. Está escrito. Mas entre o que está escrito e o que é feito existe um mundo — sobretudo quando interesses se entrelaçam, quando celulares apreendidos escondem histórias perigosas e quando um governo inteiro se mobiliza para livrar da cadeia um aliado que sabe demais.
O placar dispensa interpretações: 42 votos a favor da soltura, seis além do necessário. Vinte e um votos contra, duas abstenções, três faltas e um licenciado. Na superfície, democracia interna. Sob a superfície, medo. Medo das informações que Bacelar carrega. Medo do que ele pode revelar. Medo do que o desbloqueio do seu celular já deve estar mostrando à Polícia Federal.
Porque Bacelar não foi preso por acaso. Ele foi preso por suspeita grave: vazar informações sigilosas da Operação Zargum, que investiga justamente a corrupção que corrói a política fluminense há décadas. Mais que suspeita: as evidências, segundo os investigadores, mostram que ele obstruiu as apurações e alertou o aliado TH Joias antes da prisão. Foi tão mal orientado, tão pouco sofisticado, que caiu numa pegadinha da Polícia Federal ao comparecer a uma “reunião” que era, na verdade, o cenário montado para a própria prisão. E, como cereja do bolo, chegou lá com R$ 94 mil em dinheiro vivo dentro do carro oficial da Alerj. Dinheiro vivo: o velho idioma dos negócios que não aparecem em extratos bancários.
O sistema político fluminense, porém, move-se por outras lógicas. Rodrigo Bacelar, apesar de suas trapalhadas e de sua evidente limitação, não está só. Ele é útil. Ele é presidente da casa. Ele tem aliados devotos. E, sobretudo, tinha — e tem — o braço forte do governador Cláudio Castro, que se empenhou pessoalmente para virar votos, pressionar parlamentares e garantir o desfecho de ontem. O secretário de governo André Moura ligou para deputados nos últimos dias com uma única orientação: soltem Bacelar. A base obedecia, e o recado foi dado.
Não por acaso: Bacelar vinha sendo cogitado como possível sucessor de Castro para o governo do Rio nas próximas eleições. Com apoio do bolsonarismo e setores musculosos da máquina fluminense. Era conveniente mantê-lo em pé — ou ao menos, fora da cadeia.
E agora? Agora o procedimento é apenas formalidade. A Alerj comunica ao STF, e o Supremo revoga a prisão, porque é obrigado a aceitar a decisão do Legislativo. Mas o ministro Alexandre de Moraes certamente imporá medidas cautelares duras: afastamento da presidência da Alerj, talvez do próprio mandato; tornozeleira eletrônica; recolhimento noturno; proibição de contato com investigados. O pacote completo.
Mas nada disso muda o essencial: o Rio de Janeiro assistiu, mais uma vez, ao ritual em que a política se protege, mesmo quando isso ameaça a própria credibilidade das instituições. A liberação de Bacelar — em um caso tão grave, tão evidente e tão repleto de sinais de interferência — é mais que uma afronta ao bom senso. É uma demostração crua de como se governa o estado que já virou laboratório de crises políticas nacionais.
O terremoto ainda vai tremer mais forte. O conteúdo do celular de Bacelar pode reescrever alianças, enterrar carreiras, expor pactos obscuros. A Alerj sabe disso. O governo do estado sabe disso. E o Brasil vai descobrir.
O problema — e aqui reside o cerne da tragédia — é que nada disso surpreende mais ninguém.





