
Padre Carlos
A política brasileira tem horror ao vazio. Onde há indefinição, logo surge uma força a exigir posicionamento. E é exatamente isso que a pré-candidatura de Ronaldo Caiado à Presidência da República está provocando: o fim da confortável ambiguidade que muitos partidos cultivaram nos últimos anos.
O chamado “Efeito Caiado” não é apenas um movimento eleitoral — é um abalo sísmico no centro político. Ao se filiar ao PSD sob a batuta estratégica de Gilberto Kassab, o governador goiano não chegou sozinho. Trouxe consigo um projeto claro, ideológico, com endereço definido no espectro político. E isso, convenhamos, é quase um escândalo num partido que sempre fez da flexibilidade sua maior virtude — ou seu maior vício.
O PSD, que até então flertava com o poder sem se comprometer integralmente com ele, agora se vê diante de um espelho incômodo: afinal, é governo ou oposição? Essa pergunta, que durante anos foi empurrada com a barriga, agora cobra resposta com juros e correção política.
A saída da senadora Eliziane Gama não é um ato isolado. É sintoma. Ao migrar para o PT, ela não apenas troca de partido — ela escolhe lado. E mais do que isso: reconhece que o PSD deixou de ser território neutro. O gesto é pragmático, claro, mas também profundamente simbólico. É a política dizendo, sem rodeios: “não há mais espaço para o meio do caminho”.
E então chegamos à Bahia, esse laboratório sofisticado da política nacional, onde as alianças são construídas com a mesma habilidade com que são desfeitas. O senador Otto Alencar, figura experiente e historicamente alinhada ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, agora enfrenta um dilema que não admite neutralidade.
Ficar no PSD significa, inevitavelmente, conviver com um projeto presidencial que caminha em direção oposta ao lulismo. Sair, por outro lado, implica redesenhar sua própria trajetória política, com todos os riscos e oportunidades que isso carrega. Não se trata mais de cálculo eleitoral simples — é uma escolha de identidade.
E aqui reside a genialidade — ou o cinismo, dependendo do ponto de vista — da estratégia de Kassab. Ao mesmo tempo em que impulsiona Caiado como alternativa nacional, mantém portas abertas com o governo federal. É o velho jogo de estar em todos os lugares ao mesmo tempo, maximizando poder e minimizando riscos. Uma espécie de xadrez político onde as peças se movem em múltiplas direções, mas o rei nunca fica exposto.
O problema é que esse tipo de engenharia política tem prazo de validade. Quando um projeto presidencial ganha corpo, ele exige lealdade. E lealdade, na política, é moeda rara — mas quando cobrada, costuma vir acompanhada de rupturas.
Se Otto Alencar decidir seguir o caminho de Eliziane Gama, não será surpresa. Será consequência lógica de um processo que já está em curso. O PSD, que sempre foi um porto seguro para diferentes correntes, agora se transforma em campo de disputa. E em campos de batalha, como sabemos, não há espaço para indecisos.
O “Efeito Caiado” é, no fundo, a volta da política em sua forma mais crua: escolha, confronto e definição. Pode até parecer um retrocesso para os amantes do pragmatismo, mas é, na verdade, um sinal de maturidade do jogo democrático. Afinal, quando os atores são obrigados a se posicionar, o eleitor finalmente entende quem é quem.
E isso, num país acostumado a discursos dúbios e alianças improváveis, já é uma pequena revolução.
Porque no fim das contas, a grande verdade é simples e implacável:
quando a política exige lado… ficar em cima do muro deixa de ser estratégia — e passa a ser fraqueza.




