
(Padre Carlos)
Há gestos que dizem mais do que discursos. O pedido de Luiz Fux para deixar a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal — justamente após votar pela absolvição de Jair Bolsonaro na trama golpista que abalou o país — é um desses gestos que condensam em si um desconforto profundo, quase existencial. O ministro, outrora figura de destaque entre seus pares, hoje se vê como um estranho no ninho. Não é apenas um deslocamento físico de uma turma a outra; é um deslocamento simbólico, político e ético.
O isolamento de Fux soa como um eco tardio do lavajatismo que o projetou — aquele tempo em que o moralismo de toga se confundia com espetáculo, e onde o poder judicial se deixava seduzir pela aura de redenção da República. O lema “In Fux We Trust”, tão celebrado nas ruas e nos corredores da operação que prometia purificar a política brasileira, hoje parece uma relíquia amarga de um tempo em que o Judiciário acreditou poder ser o messias da democracia brasileira.
Mas o tempo passou, e com ele vieram os destroços. A retórica da cruzada anticorrupção deu lugar à narrativa do ressentimento autoritário. E Fux, que antes posava de guardião da moral pública, agora se aproxima do discurso daqueles que conspiraram contra as instituições, que desprezaram o voto popular e que sonharam com tanques na Praça dos Três Poderes. Sua decisão de absolver Bolsonaro não é um gesto jurídico isolado — é a confissão simbólica de um alinhamento.
O que faz um ministro do Supremo Tribunal Federal defender o indefensável? O que leva um guardião da Constituição a flertar, uma vez mais, com o abismo do autoritarismo? Fux parece ter se tornado o espelho de um país dividido, onde o medo da história pesa mais do que o dever da justiça. Sua posição revela um isolamento político que não nasce da divergência saudável entre magistrados, mas de uma escolha consciente de se afastar da razão democrática.
Há uma dimensão trágica nesse movimento: o homem de toga, cercado por símbolos da República, mas entregue à solidão dos que buscam aplausos fora do templo da lei. O Supremo Tribunal Federal, que nos últimos anos tem sido a muralha frágil mas firme diante do avanço do bolsonarismo, vê agora um de seus membros preferir o silêncio cúmplice à voz da consciência institucional.
O gesto de Fux é mais que um pedido administrativo — é um grito contido de desalento ou de cumplicidade. E, talvez, o presságio de que a democracia brasileira ainda vive cercada de sombras. Porque, no fundo, o que está em jogo não é apenas o destino de um ministro, mas o da própria República, quando aqueles incumbidos de defendê-la se tornam personagens do enredo que ameaça destruí-la.
Luiz Fux, o antigo arauto da lei, hoje parece perdido entre os ecos do passado e o ruído ensurdecedor do presente. Um homem que acreditou ser o salvador, mas que termina como um estranho no ninho, cercado por colegas que ainda resistem — e pela história, que não perdoa os que escolheram o lado errado da verdade.




