
Padre Carlos
Olá, hoje eu li na grande imprensa um artigo “brilhante” de um economista. Um verdadeiro economista de meia pataca — e não é implicância minha com a ciência econômica, que respeito profundamente quando serve ao povo. Mas há textos que parecem escritos não com planilhas, e sim com frieza de laboratório social.
Segundo o iluminado, a taxa de desemprego no Brasil — a menor da série histórica desde 2012 — está “baixa demais”. Veja você. Baixa demais. O problema, portanto, não é a desigualdade social, não é a fome, não é o salário corroído pela inflação, não é o custo de vida. O problema é… gente demais trabalhando.
A solução? Simples como um corte de juros em reunião fechada: aumentar o desemprego, diminuir a massa salarial, esfriar a economia, piorar a vida das pessoas. Tudo isso para alcançar a sagrada meta de inflação de 3%. Três por cento. O número mágico. O dogma. O bezerro de ouro do mercado financeiro.
É quase comovente.
Quer dizer que, para no ano que vem baixar a taxa de juros, precisamos antes produzir sofrimento agora. Um pequeno sacrifício coletivo — dos outros, claro. Não dele. Ele, muito provavelmente, bem remunerado, com bônus garantido, férias internacionais e ceia farta. A inflação de 3% não chega à mesa dele; chega à mesa de quem já conta moeda.
E o Brasil? O Brasil segue ostentando uma das maiores desigualdades de renda do mundo. Estamos sempre ali, no topo do ranking da concentração absurda. Mas, segundo essa lógica celestial, o problema não é a desigualdade estrutural. O problema é o pedreiro que conseguiu emprego. A balconista que voltou ao mercado de trabalho. O jovem que saiu da informalidade.
É fantástico.
Pergunto, com toda a ironia possível: quem determinou que a inflação precisa ser exatamente 3%? Por que não 4%? Por que não 3,5%? Quem escreveu essa tábua da lei econômica? Foi Moisés descendo do Monte Sinai do Banco Central? Há alguma revelação divina que desconhecemos?
A economia virou religião. E o desemprego, instrumento de purificação.
Mas aqui vai uma heresia: a economia deve servir às pessoas, não o contrário. Não é razoável que a política monetária tenha como ferramenta implícita a produção deliberada de desemprego para “acalmar o mercado”. Mercado não vota. Quem vota é o povo. Quem sofre é o povo. Quem paga a conta é o povo.
Precisamos urgentemente crescer. Crescer com inclusão produtiva. Crescer com desenvolvimento econômico sustentável. Crescer com aumento real de salários. Crescer reduzindo desigualdade social. Crescer com investimento em educação, tecnologia e inovação. Isso, sim, combate inflação estrutural: produtividade, infraestrutura, planejamento estratégico.
Não podemos aceitar que a saída seja sempre apertar o cinto do trabalhador enquanto o andar de cima troca de gravata.
O Brasil não precisa de mais desempregados para equilibrar planilhas. Precisa de mais empregos de qualidade, mais renda circulando, mais justiça tributária, mais política econômica comprometida com a vida real.
Porque quando alguém defende aumentar o desemprego como solução técnica, o que está dizendo, em bom português, é que a dor do outro é um instrumento legítimo.
E isso, meu amigo, não é ciência. É cinismo.
E contra o cinismo, a indignação ainda é a melhor resposta.




