Padre Carlos
Há uma frase do teólogo suíço Hans Küng que continua extraordinariamente atual: “A Igreja deve permanecer fiel às suas origens, não às suas formas históricas.”
Poucas afirmações ajudam tanto a compreender a crise que hoje reaparece no interior do catolicismo com o novo confronto entre a Santa Sé e a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. À primeira vista, muitos imaginam tratar-se apenas de uma disputa sobre missas celebradas em latim, padres voltados para o altar ou mulheres usando véu durante a liturgia. Mas essa leitura é superficial. O verdadeiro conflito é muito mais profundo. Ele diz respeito à própria compreensão da Igreja.
O cristianismo jamais foi uma religião construída para conservar museus. Desde Pentecostes, a Igreja vive um paradoxo permanente: conservar a mesma fé enquanto transforma continuamente sua linguagem, sua organização pastoral e sua maneira de dialogar com a história. O Evangelho é eterno; as formas pelas quais ele é anunciado nunca foram.
É precisamente essa distinção que os movimentos ultratradicionalistas recusam.
A Fraternidade Sacerdotal São Pio X nasceu em 1970 pelas mãos do arcebispo francês Marcel Lefebvre, poucos anos depois do Concílio Vaticano II. Desde então, tornou-se o símbolo mais conhecido da resistência às reformas aprovadas pelo maior acontecimento eclesial do século XX.
A recusa não dizia respeito apenas ao uso das línguas nacionais na liturgia. O que estava em jogo era muito mais amplo: a aceitação de uma Igreja aberta ao diálogo com a democracia, com os direitos humanos, com a liberdade religiosa, com o ecumenismo, com a ciência moderna e com as profundas mudanças culturais do mundo contemporâneo.
Em outras palavras, recusava-se uma nova compreensão da missão da Igreja.
Quando, em 1988, Lefebvre ordenou quatro bispos sem autorização do Papa São João Paulo II, consumou-se um gesto que a tradição católica sempre considerou gravíssimo. Não se tratava apenas de uma infração disciplinar. Tratava-se da ruptura visível da comunhão eclesial.
A possível repetição desse gesto, agora novamente anunciada, recoloca diante do catolicismo uma pergunta antiga: até onde alguém pode invocar a tradição para desobedecer à própria Igreja?
A resposta talvez esteja no Novo Testamento.
Nenhuma palavra aparece tantas vezes nos escritos de São Paulo quanto “comunhão”.
A Igreja nunca foi definida prioritariamente por um rito, uma língua ou um conjunto de costumes. Ela foi definida pela unidade em Cristo.
Quando Paulo escreve aos Coríntios, profundamente divididos, não lhes pergunta qual liturgia preferem. Pergunta algo infinitamente mais sério: “Está Cristo dividido?” (1 Coríntios 1,13).
Essa pergunta continua ecoando vinte séculos depois.
É curioso observar que muitos grupos ultratradicionalistas afirmam defender a tradição enquanto rejeitam um dos elementos mais constantes da própria tradição católica: a obediência ao sucessor de Pedro.
Existe aqui uma contradição difícil de ignorar.
Na eclesiologia católica, não há tradição autêntica fora da comunhão da Igreja. Não existe um depósito da fé preservado por pequenos grupos contra a própria comunidade eclesial. A tradição não pertence a movimentos particulares; pertence ao Corpo inteiro de Cristo.
Foi exatamente isso que o Concílio Vaticano II reafirmou.
A Constituição Lumen Gentium recuperou uma compreensão profundamente bíblica da Igreja como Povo de Deus. Antes de ser uma instituição jurídica, ela é uma comunhão de fiéis conduzida pelo Espírito Santo através da história. O ministério petrino não é um privilégio monárquico, mas um serviço à unidade.
Essa visão representou uma verdadeira revolução teológica.
Não porque inventasse algo novo.
Mas porque recuperava elementos presentes nos primeiros séculos do cristianismo, frequentemente obscurecidos por modelos excessivamente centralizadores desenvolvidos ao longo da Idade Média.
O mesmo ocorre com a liturgia.
Há quem imagine que a missa celebrada antes do Concílio Vaticano II reproduz exatamente a liturgia dos primeiros cristãos.
Nada mais distante da realidade histórica.
A liturgia romana passou por inúmeras transformações durante quase dois mil anos. O latim, por exemplo, substituiu o grego apenas porque deixou de ser a língua do povo romano. Quando foi adotado, representava exatamente aquilo que hoje representam as línguas nacionais: uma forma de tornar compreensível a celebração.
Paradoxalmente, quem hoje absolutiza o latim esquece que ele próprio foi, um dia, uma inovação pastoral.
A história da Igreja desmonta muitos mitos.
Ela revela que tradição nunca significou congelamento.
O grande teólogo Yves Congar dizia que “a verdadeira tradição é a vida do Espírito Santo na Igreja”. Não se trata de repetir fotografias do passado, mas de manter viva a mesma fé diante de circunstâncias sempre novas.
Por isso, o Vaticano II permanece um marco decisivo.
A Sacrosanctum Concilium aproximou os fiéis da liturgia.
A Dei Verbum devolveu a centralidade da Palavra de Deus.
A Gaudium et Spes ensinou que a Igreja não existe para condenar o mundo, mas para dialogar com ele e iluminá-lo.
Nenhuma dessas constituições abandonou a tradição.
Todas procuraram reencontrar suas fontes.
O problema do ultratradicionalismo é que ele frequentemente transforma a memória em nostalgia.
E nostalgia nunca foi categoria teológica.
A nostalgia idealiza um passado que jamais existiu exatamente como é lembrado. Ela esquece que a Igreja medieval também conheceu corrupção, abusos, disputas políticas, perseguições e graves crises internas.
Idealizar qualquer período histórico significa esquecer que a santidade da Igreja nunca dependeu da perfeição de suas estruturas, mas da presença permanente de Cristo.
Há ainda outro aspecto que merece atenção.
Vivemos uma época marcada pelo crescimento de movimentos identitários em quase todas as esferas da sociedade. Na política, na cultura e também na religião, cresce a tentação de definir a identidade pela oposição ao outro.
Infelizmente, esse fenômeno também penetra no catolicismo.
Alguns grupos deixam de anunciar Cristo para anunciar uma identidade religiosa construída sobre símbolos, vestimentas, costumes e fronteiras ideológicas.
A fé transforma-se em marcador cultural.
A liturgia converte-se em trincheira política.
O altar passa a servir às disputas do mundo em vez de reconciliar o mundo com Deus.
É exatamente contra essa tentação que o Papa Francisco tem insistido na imagem da Igreja como “hospital de campanha”. Não porque deseje relativizar a doutrina, mas porque compreende que o centro do cristianismo não é a nostalgia do passado, mas a misericórdia de Deus manifestada em Jesus Cristo.
A tradição continua sendo indispensável.
Sem raízes, nenhuma árvore permanece de pé.
Mas uma árvore que vive apenas de suas raízes e deixa de produzir folhas, flores e frutos já começou a morrer.
O mesmo acontece com a Igreja.
Sua fidelidade não consiste em preservar intactas as formas culturais de um determinado século, mas em permanecer permanentemente unida ao Senhor da história.
Foi por isso que Jesus, na véspera de sua paixão, não pediu ao Pai que seus discípulos falassem uma única língua, utilizassem um único rito ou repetissem eternamente uma única forma litúrgica.
Seu pedido foi infinitamente mais profundo.
“Que todos sejam um.”
Essa continua sendo a mais alta definição da Igreja.
E também seu maior desafio.
Toda tradição que fortalece essa unidade merece ser preservada.
Toda tradição que rompe essa unidade, ainda que revestida de piedade, deixa de servir ao Evangelho para servir apenas às próprias convicções.
Porque a Igreja não pertence ao passado.
Ela pertence a Cristo.
E Cristo continua caminhando à frente do seu povo, conduzindo-o, pelo Espírito Santo, através da história.





