Política e Resenha

ARTIGO – O Feitiço do Centrão e a Armadilha do Congresso

 

 

(Padre Carlos)

O que assistimos ontem em Brasília é mais do que um embate entre governo e oposição — é uma tragédia política em capítulos repetidos. O centrão e a oposição, de mãos dadas quando lhes convém, miram no presidente Lula, mas acertam em cheio o Brasil e a população brasileira. Esse é o ponto mais dramático dessa novela que, a cada legislatura, ganha novos atores, mas o mesmo roteiro: o Congresso Nacional transformado em um poder que captura o orçamento público e dita a pauta fiscal.

O economista Marcos Mendes tem razão ao afirmar que, desde Dilma Rousseff, o Congresso passou a interferir de forma determinante na política fiscal. A consequência disso é visível: o governo federal fica refém de uma estrutura de poder que se alimenta de emendas, cargos e benesses. O equilíbrio entre arrecadação e investimento estrutural foi substituído por um modelo de “sobrevivência política”, onde o presidente da República precisa negociar cada centavo como se fosse refém do próprio Parlamento.

E não é de hoje. Michel Temer, um político que conhecia como poucos os corredores da Câmara, acabou de joelhos diante do centrão. Se nem ele, com toda sua habilidade de bastidor, conseguiu governar sem entregar parte do orçamento, o que dizer de outros governos? Dilma caiu sob a mesma pressão. Bolsonaro, que prometeu enfrentar o sistema, rendeu-se a ele. E agora Lula enfrenta o mesmo dilema: governar com o Congresso ou ser engolido por ele.

O Brasil vive um feitiço perigoso — o feitiço do centrão. A cada governo, o Parlamento amplia o seu poder sobre o Orçamento, transformando a política em um balcão de negócios. É uma armadilha institucional, talvez a mais grave da Nova República. O risco é que nenhum presidente, por mais popular que seja, consiga romper esse ciclo. Nem Jesus Cristo, como ironizou um analista, conseguiria enfrentar esse Congresso Nacional.

A saída? Talvez esteja onde menos se espera: no Supremo Tribunal Federal. Se o STF não colocar freio na farra das emendas de relator e não restabelecer o princípio republicano do orçamento público — aquele que serve ao povo e não aos parlamentares —, ficaremos condenados a repetir a história.

O problema não é apenas fiscal, é estrutural. É a subversão do papel dos Poderes. Enquanto isso, o Brasil segue paralisado, e o povo continua pagando a conta.