
(Padre Carlos)
A notícia que agitou Brasília nesta semana lança luz sobre um fenômeno perigoso e sintomático da nossa era: a politização internacionalizada do ressentimento. A Procuradoria-Geral da República pediu ao Supremo Tribunal Federal a abertura de inquérito contra o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), por suas atuações em solo norte-americano contra autoridades brasileiras, notadamente ministros do STF.
Eduardo Bolsonaro tem se comportado mais como um agente ideológico do que como parlamentar comprometido com a institucionalidade do Brasil. Em entrevistas e postagens, não apenas criticou duramente ministros da Suprema Corte, como também defendeu, em solo estrangeiro, a aplicação de sanções econômicas contra autoridades do próprio país. A isso se chama “diplomacia do confronto”, uma postura que beira a antipatriótica, ainda que travestida de “defesa da liberdade”.
A PGR enxerga, com razão, um tom intimidatório nas declarações do deputado. Não se trata mais de retórica de palanque ou bravatas típicas da polarização nacional. Estamos falando de movimentações concretas, com intenções práticas e consequências diplomáticas. O fato de Eduardo buscar apoio de um país estrangeiro contra as instituições de seu próprio país remete à lógica de colonizados, onde se pede à metrópole que corrija os “abusos” locais. É uma inversão absoluta do princípio da soberania.
Mais grave ainda é a convocação do ex-presidente Jair Bolsonaro para depor. Isso amplia a investigação para o entorno político-familiar de uma figura ainda muito presente no debate público. O clã Bolsonaro parece não conseguir se desvincular da retórica do embate permanente, como se o país ainda estivesse em campanha eleitoral.
O Brasil vive tempos perigosos, em que a deslegitimação das instituições se tornou um instrumento de ação política. Não importa o mérito das críticas feitas ao STF – e elas são legítimas em uma democracia – o problema é o método. Fazer oposição às decisões judiciais dentro das regras do jogo é parte do processo democrático. Mas buscar pressões externas, especialmente de governos estrangeiros, fere a alma da República.
É hora de reafirmar os pilares do Estado Democrático de Direito, onde nenhum poder deve se submeter à chantagem, ainda que disfarçada de liberdade. Eduardo Bolsonaro está sendo chamado à responsabilidade. Que o inquérito aberto pelo ministro Alexandre de Moraes sirva não como instrumento de revanche, mas como marco pedagógico: o Brasil é maior do que qualquer projeto de poder pessoal.




