
(Padre Carlos)
Enquanto muitos se distraem com as movimentações midiáticas de Michele Bolsonaro, as aparições calculadas dos filhos do ex-presidente e os discursos inflamados da ultradireita, o verdadeiro projeto político do bolsonarismo se move nos bastidores com uma frieza estratégica: o objetivo central é controlar o Senado Federal. Essa é a floresta que muitos não enxergam porque estão fascinados pelas árvores plantadas para confundir e dispersar.
A nova fase da direita brasileira — especialmente aquela mais radicalizada e disposta a romper com os limites institucionais da democracia — aposta todas as suas fichas na formação de uma bancada fiel e numerosa no Senado. Por quê? Porque é no Senado que reside o poder constitucional de julgar Ministros do Supremo Tribunal Federal, aprovar indicações ao STF, definir pautas de anistia e, em última instância, sustentar ou frear qualquer avanço de reformas constitucionais que alterem o equilíbrio entre os Poderes.
A pretensa candidatura presidencial de Michele Bolsonaro, assim como as movimentações de Flávio, Eduardo e Carlos, nada mais são do que peças de marketing político e distração pública. O bolsonarismo sabe que, sem uma base sólida no Senado, nenhum projeto autoritário pode avançar de forma duradoura no país. A eleição presidencial de 2026 é, nesse cenário, menos prioritária. O foco real é consolidar poder em um campo menos visado: o Senado.
A engenharia do poder
Flávio Bolsonaro já tem praticamente garantida sua reeleição no Rio de Janeiro. Eduardo, se for lançado por São Paulo, carrega consigo um eleitorado bolsonarista fiel. Carlos poderá concorrer em outro estado com boas chances, e Michele Bolsonaro tende a ser a candidata da vez no Distrito Federal. Com isso, o clã Bolsonaro pode colocar até quatro senadores diretamente ligados à sua linha ideológica. E não para por aí.
Estados como Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Acre e outros onde o bolsonarismo tem presença forte e estrutura partidária enraizada podem eleger até dois senadores cada, ampliando a base. Some-se a isso os acordos com o chamado “centrão fisiológico” e a direita liberal, que veem no Senado um espaço de barganha política e de autopreservação diante das pressões do Judiciário. A equação se torna assustadoramente viável.
O Senado como trincheira
Para Bolsonaro, a anistia não é apenas um desejo — é uma necessidade existencial. Com investigações em andamento, decisões judiciais em curso e a ameaça constante de inelegibilidade ou prisão, ele precisa de garantias institucionais. Essas garantias não virão das ruas, tampouco das redes sociais. Elas virão de dentro das paredes do Senado Federal, onde votos decididos em silêncio têm mais impacto do que milhões de curtidas.
Por isso, o bolsonarismo não quer o Planalto antes do Senado. O Senado é a ponte entre a sobrevivência jurídica e a retomada do poder executivo. É lá que se poderá, segundo seu projeto, pressionar o STF, pautar pedidos de impeachment contra ministros como Alexandre de Moraes, votar uma anistia ampla e, se necessário, provocar uma nova reconfiguração da democracia brasileira.
O alerta democrático
Diante desse cenário, a sociedade civil precisa acordar. As eleições para o Senado sempre foram negligenciadas pela população, que tende a dar mais atenção às disputas presidenciais e para os governos estaduais. Mas agora, mais do que nunca, o Senado se tornou o tabuleiro principal da disputa pelo futuro institucional do país.
Ignorar isso é correr o risco de ver, em 2026, uma maioria bolsonarista articulada, bem financiada, blindada por alianças e pronta para impor sua agenda, não pelas urnas presidenciais, mas pelas votações regimentais do Senado. A democracia brasileira pode estar sob ataque — não pela força, mas pela caneta.




