Política e Resenha

ARTIGO – O Julgamento que a História ainda Não Fez (Padre Carlos)

 

 

Há vozes na política brasileira que, ao ecoarem após décadas de silêncio ou condenação, parecem vindas do fundo de uma consciência nacional que se recusa a morrer. Uma dessas vozes é a de José Dirceu, figura central na história recente do país, que voltou à cena com declarações contundentes sobre o processo que o transformou de herói da resistência contra a ditadura a símbolo da corrupção institucionalizada. Um ciclo que, se não for revisto, continuará a nos assombrar como um erro que a democracia cometeu contra si mesma.

Em 16 de junho, completaram-se 20 anos desde que Dirceu deixou o governo, e ele mesmo nos recorda: “Fui transformado em bandido em 24 horas.” Uma frase que, dita por qualquer outro, talvez soasse como autopiedade. Mas no caso de Dirceu, envolve o peso da História – a que ele ajudou a escrever, mas também a que se escreveu sobre ele.

O “Mensalão” foi o primeiro grande espetáculo judicial da era digital, e Dirceu foi o protagonista vilanizado. O que muitos ignoram – ou preferem esquecer – é que o Supremo Tribunal Federal o absolveu de formação de quadrilha, e nunca o acusou de peculato ou lavagem de dinheiro. O próprio jurista Klaus Roxin, criador da doutrina do domínio do fato, veio ao Brasil afirmar que ela fora mal aplicada em seu caso.

Se justiça é dar a cada um o que é seu, o que foi dado a Dirceu foi linchamento político e jurídico. E o que é pior: sua cassação e condenação sustentaram um teatro moral que encobriu muitos outros escândalos ainda mais graves e sistemáticos que se seguiram nos anos seguintes – com provas, cifras, e efeitos devastadores para a economia nacional.

Dirceu promete agora uma revisão criminal, não apenas como direito pessoal, mas como legado para seus herdeiros. E está certo. Porque enquanto a História não for recontada com honestidade, ela continuará servindo de cortina para farsas convenientes.

A condenação de José Dirceu, à luz dos fatos posteriores, revela mais sobre o funcionamento político da Justiça brasileira do que sobre a culpa individual do acusado. Por isso, cabe sim perguntar: quem pagará pela injustiça que o condenou? E mais: quantas outras biografias seguem manchadas por conveniências políticas travestidas de julgamento técnico?

Que a revisão venha. Para ele, para a História – e para nós.