
Padre Carlos
Eu não costumo bater tambor pra doido dançar. A experiência ensina que há silêncios mais eloquentes do que mil palavras. Mas há momentos em que o silêncio deixa de ser virtude e passa a ser cumplicidade. Quando se trata da família Bolsonaro e de sua relação histórica com as instituições da República, abrir exceção não é vaidade: é dever cívico.
As recentes declarações de Eduardo Bolsonaro contra o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, são mais do que um desabafo político. São a radiografia perfeita de uma mentalidade patrimonialista, arcaica, incompatível com o Estado Democrático de Direito. Ao afirmar que estaria sendo “cassado” porque não foi aceito como líder da Minoria, mesmo residindo fora do país, Eduardo revela não apenas desconhecimento institucional — revela algo mais profundo: a crença de que cargos públicos são extensões do sobrenome, não funções reguladas por regras republicanas.
O patrimonialismo brasileiro sempre operou assim: confunde o público com o privado, a lei com a vontade, a República com a casa-grande. O que espanta não é o argumento em si, mas a naturalidade com que ele é apresentado. Como se fosse absurdo a Câmara exigir presença, responsabilidade, compromisso institucional. Como se o mandato fosse um direito vitalício, independente de território, deveres ou decoro.
Quando Eduardo Bolsonaro afirma que “não é obrigação do presidente da Casa saber se eu estou nos EUA”, ele diz mais do que imagina. De fato, não é. Mas é obrigação do parlamentar respeitar o Parlamento. Liderança política não é título honorífico, é exercício permanente. Não se lidera uma minoria à distância, por redes sociais, nem por lives indignadas transmitidas do exterior. Democracia não funciona em modo remoto quando convém ao ego.
Há, nesse episódio, um traço recorrente da família Bolsonaro: a personalização do poder. Tudo gira em torno do “eu”. Eu fui injustiçado. Eu fui impedido. Eu sou a vítima. Nunca a instituição, nunca o coletivo, nunca a democracia. É sempre o indivíduo — ou melhor, o sobrenome — colocado acima das regras do jogo republicano.
Esse comportamento não é novo. Ele apenas se atualiza. Antes, era o discurso antissistema para ocupar o sistema. Agora, é o discurso de perseguição para justificar privilégios. Trata-se de uma estratégia política conhecida, baseada na vitimização permanente e na deslegitimação das instituições, especialmente quando elas ousam dizer “não”.
O Brasil já pagou caro demais por essa cultura política. O patrimonialismo corrói a confiança pública, enfraquece o Estado, transforma o Parlamento em palco de ressentimentos pessoais. Quando um ex-deputado se sente “cassado” por não poder exercer liderança morando fora do país, o problema não é Hugo Motta. O problema é a incompreensão — ou o desprezo — pelo que significa a República.
A democracia exige maturidade, presença, responsabilidade e respeito às regras. Não é um clube familiar nem um direito hereditário. Mandato não é propriedade privada. Cargo público não é extensão do sobrenome. E a Câmara dos Deputados não é puxadinho ideológico de nenhuma família.
Talvez o maior drama desse episódio seja revelar, mais uma vez, que parte da elite política brasileira ainda não entendeu — ou finge não entender — que a República não tem dono. Ela pertence ao povo. E quem não aceita isso, por mais barulho que faça, está apenas confessando sua incapacidade de viver sob a democracia que diz defender.




