Política e Resenha

ARTIGO – O punhal que eles juram não ter visto: Mauro Cid, acareação e o blefe golpista

 

 

(Padre Carlos)

Vamos direto ao ponto: Mauro Cid mudou de versão. E não foi porque teve uma súbita epifania moral ou foi acometido por um arrependimento evangélico de última hora. Mudou porque a Polícia Federal bateu à porta — com um mandado numa mão e, na outra, o esboço de um golpe militar que parecia ter saído de uma reunião de WhatsApp entre militares e lunáticos.

A acareação no STF entre o tenente-coronel Cid e o general Braga Netto, figuras-chave no entorno de Jair Bolsonaro, não é apenas mais um episódio na novela distópica da política nacional. É um espelho do estado de negação em que parte do país ainda vive — negação das urnas, da Constituição e da própria ideia de democracia. Não se trata mais de delírio. É projeto.

Cid, que foi mais que um ajudante de ordens — era o despachante da insensatez palaciana —, agora tenta separar patriotismo de conspiração. Mas o que espanta — ou deveria enojar — é que um militar treinado só tenha percebido que estava numa reunião golpista após a PF colocar os pingos nos “is” e os áudios nos autos. Alguém, por gentileza, envie ao tenente-coronel uma cópia da Constituição. E, se possível, com marca-texto.

O tal plano “Punhal Verde e Amarelo” — nome que lembra mais um desfile cívico de escola pública do que uma tentativa de ruptura institucional — é, na verdade, a síntese da era da bravata travestida de opinião. E o pior: parte da elite civil, da imprensa e do próprio Judiciário viu, soube, mas preferiu tratar o golpismo como “excesso de linguagem”. Só reagiram quando a prova foi entregue com legenda, data e áudio.

Cid agora retifica. Palmas? Não. O mínimo que se espera de alguém que flertou com o abismo é que pare de dançar à beira. Ainda assim, sua mudança de versão expõe o que muitos tentam ocultar: que a retórica do caos sempre teve estrutura, planejamento e apoio. E que ela só recua quando confrontada por instituições — aquelas mesmas que foram vilipendiadas durante quatro anos.

Mas sejamos diretos: não é sobre Cid. É sobre o ecossistema que o produziu. Um sistema de permissividades onde militares se acham intérpretes da vontade nacional, ainda que isso exija atropelar a soberania popular. A ameaça à democracia brasileira não foi uma invenção da imprensa, foi um projeto com PowerPoint, cronograma e comando.

Enquanto tratarmos episódios como este como “mais um escândalo político”, estaremos só preparando o terreno para que outro punhal — talvez com um novo nome, menos caricatural — seja forjado no escuro, pronto para atacar a espinha da democracia.

Não há bravata inofensiva quando dita por quem tem tanques, armas ou poder institucional. E não há democracia que resista à indiferença diante de suas cicatrizes. A história já mostrou — mais de uma vez — o que acontece quando confundimos silêncio institucional com estabilidade.