Política e Resenha

ARTIGO – O que nos é levado quando alguém parte

 

 

(Padre Carlos)

Há despedidas que nunca se anunciam. Elas acontecem no silêncio de um gesto, no súbito esvaziamento de uma rotina, no vazio que se instala onde antes havia o calor de uma presença. Não é apenas a ausência da pessoa que fere, mas o espaço que ela ocupava dentro de nós. O que sentimos falta não é do outro apenas — é de nós mesmos refletidos nele, é do que fomos enquanto a vida se repartia em dois.

Quando alguém vai embora, leva consigo muito mais do que o corpo pode carregar. Leva a paisagem dos lugares que se tornaram comuns, leva a simplicidade dos ritos cotidianos que se converteram em abrigo, leva uma parte imensa do nosso próprio ser que se moldou à convivência. É como se arrancassem de nós um pedaço invisível, mas vital.

As promessas não cumpridas também partem junto. Os sonhos que se desenhavam no horizonte, as palavras ditas no futuro do pretérito — tudo se desfaz como poeira de memória. E ficamos nós, diante do peso do racional que tenta justificar: “ela tinha o direito de escolher”. Mas há dores que a lógica não alcança. Há despedidas que não se medem em direitos, mas em feridas.

O coração, rebelde, se recusa a aceitar o que a razão tenta impor. Ele insiste em reter aquilo que já foi levado. Porque, no fundo, nós não sentimos falta só da pessoa. Sentimos falta do que fomos quando ela estava. Do que ela fez de nós, e do que ela levou embora sem pedir permissão.

No silêncio que sobra, resta o aprendizado amargo: a eternidade que acreditamos tocar com as mãos não estava no outro, mas no instante que partilhamos. E é por isso que dói tanto — porque fomos arrancados de um pedaço de nós mesmos.