(Padre Carlos)
A proposta de taxação do IOF que causou agitação recente no mercado financeiro revela mais do que uma simples tentativa de ajuste fiscal. O recuo do governo, menos de 48 horas após o anúncio, foi sintomático. Foi erro técnico ou uma admissão de que Fernando Haddad não tem base no Congresso para bancar medidas impopulares?
A resposta talvez seja: ambas. O governo parece ter subestimado a resistência do mercado e da própria base parlamentar. Não se trata apenas de convencer deputados e senadores — o governo precisa também cuidar da confiança dos agentes econômicos. E aqui, o que vimos foi uma falha de comunicação política que se somou à instabilidade institucional que o país ainda enfrenta.
Taxar o IOF em operações financeiras de curto prazo poderia até fazer sentido em uma estratégia emergencial de arrecadação. Mas, quando mal explicado, qualquer movimento vira munição para o noticiário alarmista que alimenta o pânico do mercado. E foi exatamente isso o que ocorreu. A mídia transformou o anúncio numa narrativa de insegurança jurídica, alimentando a percepção de que o governo bate cabeça, não tem rumo e ameaça a credibilidade econômica do país.
O ministro Fernando Haddad tentou desconstruir essa narrativa com entrevistas e explicações técnicas. Mas já era tarde. No xadrez da política e da economia, o timing é tudo. O recuo só confirmou a impressão de um governo pressionado, que não mede corretamente o impacto de suas ações nem consegue articulação sólida para defendê-las.
Houve também uma clara falha de liderança política. O Planalto não preparou o terreno com seus aliados, nem construiu pontes com setores estratégicos do empresariado. Resultado: a proposta nasceu morta, e o recuo reforçou a imagem de um governo vulnerável, ainda em busca de um eixo claro para o seu projeto de ajuste fiscal.
É legítimo discutir novas fontes de receita. Mas isso exige coordenação, previsibilidade e, sobretudo, credibilidade. O mercado não teme aumento de impostos em si; teme incertezas.
Se quiser sobreviver politicamente e manter as mínimas condições para governar, o governo precisa entender que comunicação não é acessório — é estratégia. E que cada erro reforça a narrativa que a oposição e parte da imprensa querem vender: a de um governo perdido, frágil e sem pulso para liderar um país em crise.





