Política e Resenha

ARTIGO – O resgate do 13 de maio e a coragem da memória

 

(Padre Carlos)

Na tribuna da Câmara Municipal, nesta quarta-feira, a vereadora Lara Fernandes fez algo raro no cenário político atual: exerceu a memória como ato de coragem. Ao destacar o 13 de maio como a verdadeira data da abolição da escravatura no Brasil, ela não apenas trouxe à tona um capítulo essencial da história nacional, mas também colocou o dedo na ferida de um país que constantemente reescreve o passado conforme as conveniências do presente.

Ao evocar a figura da Princesa Isabel, Lara não romantizou o Império, mas reconheceu que, em 1888, uma mulher enfrentou pressões econômicas e políticas, inclusive da elite escravocrata, para assinar a Lei Áurea — uma lei de apenas duas linhas, mas que quebrou correntes de séculos. Esse gesto, como bem pontuou a vereadora, teve um custo: Isabel jamais retornaria ao trono.

A parlamentar também denunciou um apagamento histórico: até 1932, o 13 de maio era feriado nacional. Getúlio Vargas, em seu projeto de refundação da identidade brasileira, apagou essa data da memória oficial. E, com isso, retirou do calendário a lembrança do dia em que a escravidão foi declarada extinta no Brasil.

Vivemos hoje uma disputa de memórias. O 20 de novembro, Dia da Consciência Negra, celebra a resistência, a cultura, a ancestralidade. Já o 13 de maio marca a ruptura legal com o cativeiro. Não são datas excludentes, mas complementares. Silenciar uma em nome da outra é empobrecer a história.

O gesto de Lara Fernandes nos obriga a refletir: por que temos medo de reconhecer a complexidade do nosso passado? Por que a figura da Princesa Isabel, tão reverenciada em seu tempo, tornou-se quase um tabu nos debates modernos? A resposta talvez esteja na dificuldade que temos de lidar com as nuances da história — preferimos heróis ou vilões, ignorando que a realidade é feita de escolhas difíceis.

Recolocar o 13 de maio no lugar que lhe é de direito não é retrocesso — é um avanço na direção da verdade. E nesse caminho, a vereadora Lara Fernandes mostrou que a tribuna pode ser, sim, um lugar de reparação.