Política e Resenha

ARTIGO – O Silêncio das Ferrovias e o Grito de Janja

 

 

(Padre Carlos)

Enquanto o presidente Lula desembarcava na China para consolidar uma aliança estratégica que promete injetar mais de R$ 27 bilhões em infraestrutura brasileira, a imprensa nacional, decidiu que o assunto mais relevante para o Brasil era… a etiqueta da primeira-dama.

Janja da Silva, mulher ativa, consciente de seu papel político e social, tornou-se o centro de uma tempestade midiática forjada por setores que ainda não digeriram o protagonismo feminino, sobretudo quando esse protagonismo rompe com os padrões da “bela, recatada e do lar”.

A viagem à China não foi apenas mais uma missão diplomática: foi a reafirmação de um Brasil soberano, disposto a reindustrializar-se, a investir no Nordeste, a recuperar sua malha ferroviária, a expandir sua base tecnológica. Foi, também, um gesto de ousadia geopolítica, ao reforçar laços com o maior parceiro comercial do país, deslocando o eixo da dependência histórica com os Estados Unidos.

Mas a mídia hegemônica — a mesma que silenciou sobre os escândalos familiares e institucionais da gestão anterior — optou por sabotar o debate de interesse nacional. Deixou os trilhos da nova ferrovia em silêncio para amplificar o eco de uma fofoca palaciana. E quem vazou? Um ministro? Um traidor? Um machista ressentido? É preciso apurar.

A tentativa de silenciar Janja é, na verdade, um reflexo da tentativa de silenciar todas as mulheres. É uma extensão do preconceito histórico contra figuras femininas que se recusam a ocupar o espaço decorativo que lhes foi imposto por séculos. A diferença é que agora, essas mulheres não estão mais caladas.

É misógino? Sem dúvida. Mas é mais que isso. É também político. Atacar Janja é atacar Lula. É tentar sabotar o governo por dentro, minar sua base ética, transformando uma mulher livre em arma contra seu próprio companheiro. É golpe simbólico — como foram os pedalinhos de Dona Marisa, a tapioca do Ministro Orlando, a “copa e cozinha” que virou manchete nos tempos de Dilma.

Janja tem direito a fala, sim. Direito a opinião. Direito a intrometer-se. Direito de existir como sujeito político. Não porque Lula permite — mas porque a Constituição garante. E porque a história exige. A primeira-dama do Brasil não é uma boneca de porcelana para posar em capa de revista. Janja é cidadã. É ativista. É mulher. É política. E deve falar, sim. Deve opinar. Deve incomodar os acomodados e provocar os covardes.

Neste país que aprendeu a desconfiar da democracia, o protagonismo feminino ainda é visto como afronta. Mas é nele, justamente, que repousa a esperança de uma política mais humana, mais justa e mais verdadeira.

E por isso, Janja incomoda.

E que bom que incomoda.