
Padre Carlos
Há momentos na história em que a omissão pesa mais do que o erro. A esquerda latino-americana nasceu proclamando solidariedade entre os povos, denunciando bloqueios econômicos, defendendo soberania nacional e dignidade humana. Mas, diante da maior crise humanitária recente em Cuba, a esquerda brasileira — especialmente o Partido dos Trabalhadores, força hegemônica desse campo político e hoje no poder — tem escolhido um silêncio constrangedor.
E esse silêncio não é diplomacia. É um erro histórico.
Cuba enfrenta uma crise energética dramática. A interrupção do fornecimento regular de petróleo da Venezuela agravou apagões prolongados, colapsos logísticos e paralisações industriais. Hospitais funcionam com geradores precários. A cadeia de alimentos sofre interrupções constantes. O cotidiano do povo cubano transformou-se numa luta pela sobrevivência básica.
Não se trata aqui de debate ideológico sobre modelo político. Trata-se de humanismo.
O México tem sido, até o momento, o único país de porte a manter ajuda permanente e concreta. Recentemente enviou um navio de grande porte com combustível, demonstrando que solidariedade internacional não é discurso — é ação. A Rússia anunciou envio de petróleo, mas a efetividade prática ainda é incerta. Enquanto isso, o Brasil, potência regional, mantém-se estranhamente quieto.
Por quê?
A esquerda brasileira sempre denunciou o bloqueio econômico imposto pelos Estados Unidos como fator de sofrimento do povo cubano. Se essa análise é verdadeira — e há argumentos consistentes de que as sanções agravam a crise — então a coerência exige algo além de discursos protocolares. Exige liderança regional. Exige ajuda humanitária estruturada. Exige iniciativa diplomática ativa.
O Brasil possui capacidade logística, experiência em cooperação Sul-Sul e tradição diplomática reconhecida. Poderia liderar um consórcio latino-americano de apoio emergencial. Poderia articular envio de combustível, medicamentos, alimentos. Poderia convocar fóruns multilaterais. Poderia, ao menos, agir com a mesma convicção que demonstra em outras agendas internacionais.
Mas não age.
E quando não age, a narrativa adversária cresce. A direita acusa a esquerda de seletividade moral: defende direitos humanos quando convém, silencia quando a realidade é desconfortável. Ao permanecer inerte, o governo brasileiro entrega munição simbólica a seus opositores e compromete sua própria coerência histórica.
A solidariedade não pode ser seletiva. Se o princípio é a defesa dos povos contra o sofrimento imposto por bloqueios e crises estruturais, então Cuba merece mais do que notas diplomáticas discretas.
O povo cubano não é uma abstração ideológica. São trabalhadores enfrentando apagões. São mães improvisando refeições com o que resta. São idosos esperando por medicamentos. São jovens emigrando por falta de perspectiva.
A tradição da esquerda latino-americana sempre foi internacionalista. Desde os tempos das conferências tricontinentais até os fóruns regionais contemporâneos, o discurso foi claro: nenhum povo será deixado sozinho.
Hoje, Cuba está praticamente sozinha — com o México enviando ajuda concreta e o restante da região observando.
O Brasil deveria ter vergonha de fingir que nada está acontecendo.
Não se trata de defender governo A ou B. Trata-se de defender gente. A história não absolve quem escolhe o silêncio quando poderia escolher a ação.
Se a esquerda brasileira deseja preservar sua identidade histórica, precisa transformar discurso em prática. Precisa liderar ajuda humanitária real. Precisa agir antes que a omissão de hoje se transforme na contradição imperdoável de amanhã.
Porque, no fim, a história não pergunta quem tinha razão ideológica.
Ela pergunta quem teve coragem moral.




