
(Padre Carlos)
O episódio revelado pelo The New York Times, em que o Departamento de Justiça dos Estados Unidos teria enviado uma carta ao ministro Alexandre de Moraes com duras críticas à decisão de bloquear a plataforma Rumble no Brasil, exige uma resposta firme, urgente e à altura da soberania brasileira. O Itamaraty, guardião tradicional da nossa diplomacia e dos interesses do Brasil no cenário internacional, até o momento se mantém em silêncio. Mas este não é o momento de silêncios, e sim de posições contundentes.
Não se trata de defender ou criticar as decisões de Moraes — que, como membro do Supremo Tribunal Federal, atua dentro das prerrogativas constitucionais e no contexto de nossa ordem jurídica. O que está em jogo é algo muito maior: o respeito à autonomia de um país soberano, ao seu Judiciário, ao seu Parlamento e ao seu Poder Executivo.
O que os Estados Unidos fariam se o Brasil enviasse uma carta a um juiz da Suprema Corte americana, contestando uma decisão judicial relacionada a empresas brasileiras ou estrangeiras operando em seu território? O gesto seria considerado um ultraje diplomático, um atropelo inaceitável à independência das instituições e à soberania nacional. Pois foi exatamente isso que Washington acaba de fazer com Brasília.
É inaceitável que, diante de um episódio que toca diretamente a dignidade institucional do Brasil, o Ministério das Relações Exteriores ainda não tenha se pronunciado. Onde está o Itamaraty? Onde está o chanceler Mauro Vieira? Por que não convocar o embaixador americano para explicações formais? Onde está o Congresso Nacional, que deveria — como representante do povo — exigir esclarecimentos e tomar posição pública diante da ingerência norte-americana?
O Brasil é uma nação independente, com um Estado de Direito consolidado, instituições robustas e legitimidade para fazer valer suas leis em seu território. A plataforma Rumble, ao operar no Brasil e se dirigir ao público brasileiro, está sujeita à legislação nacional — gostem ou não os setores mais alinhados a Donald Trump.
Mais grave ainda é o silêncio cúmplice de parte da mídia e da elite política, que parece disposta a aceitar passivamente mais um gesto imperial vindo do Norte. A subserviência ideológica não pode se sobrepor à defesa dos interesses nacionais. Independentemente das paixões políticas ou do conteúdo das decisões judiciais, permitir que um governo estrangeiro dite regras sobre o que pode ou não ser feito em nosso país é abrir mão da nossa autodeterminação.
O povo brasileiro precisa ouvir da boca de suas autoridades que o Brasil não aceitará tutelas estrangeiras, vinda de quem vier. O governo Lula, que tantas vezes se orgulha de sua política externa independente e multilateral, não pode se omitir neste caso. Assim como o Congresso Nacional deve reagir, com altivez e firmeza, exigindo explicações e cobrando uma postura que coloque os Estados Unidos em seu devido lugar: o de parceiros diplomáticos, não de tutores coloniais.
A defesa da soberania nacional não pode ter lado. Não pode depender de quem é o magistrado ou de qual rede social foi atingida. Ela deve ser um imperativo categórico. É disso que se trata agora: da nossa dignidade como Nação.




