
(Padre Carlos)
Há mortes que não terminam no instante em que o corpo cai. Elas continuam ecoando — nas vielas, nos becos, nas escolas fechadas, nos ônibus que não chegam, no medo que se instala como um nevoeiro pesado sobre a cidade. A morte do cabo da Polícia Militar Glauber Rosa Santos, pai de dois filhos, homem de farda e de rotina, foi uma dessas. Não apenas pela tragédia em si, mas pelo rastro de sangue institucional que se seguiu no Complexo do Nordeste de Amaralina. Em poucos dias, onze outros homens perderam a vida em operações policiais. E, com eles, algo ainda mais precioso foi ferido: a confiança no Estado Democrático de Direito.
Falo deste lugar com a autoridade de quem não aprendeu a violência nos livros ou nos relatórios frios das estatísticas. Eu vim do Nordeste de Amaralina. Do lado mais violento do Complexo, o Alto do Areal. Conheço o som das rajadas misturado ao silêncio forçado das casas fechadas. Conheço o domínio do tráfico, o medo que atravessa a noite, a insegurança que molda a infância e envelhece cedo demais os moradores. Não falo como observador distante. Falo como alguém que viveu na pele tudo isso. E justamente por isso há coisas que precisam ser ditas — mesmo quando incomodam.
A Bahia vive um paradoxo cruel. Chora seus policiais mortos — e deve chorar. Mas responde com uma política de segurança que parece acreditar que a morte resolve a morte. Os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública são inequívocos: a Polícia Militar da Bahia lidera o ranking nacional de letalidade policial, acumulando o maior número absoluto de mortes em intervenções desde 2019. Isso não é abstração estatística. São corpos no chão, famílias destroçadas, comunidades inteiras vivendo sob cerco psicológico permanente. A violência policial deixou de ser exceção e passou a ser método.
Quem conhece o Alto do Areal sabe: o tráfico é brutal, impõe regras, subjuga vidas e destrói futuros. Não há romantização possível do crime. Mas também não há justiça quando o Estado responde reproduzindo a mesma lógica da morte. Quando a polícia mata muito, algo está profundamente errado, não apenas na ponta da operação, mas no desenho da política pública. Segurança não é vingança; é proteção da vida. Não é espetáculo de força; é inteligência, prevenção e presença cidadã.
É aqui que o silêncio se torna ensurdecedor. Um silêncio que não vem da direita tradicional, mas de setores da esquerda que integram o governo Jerônimo Rodrigues. Um silêncio constrangedor, pragmático, calculado. Como se denunciar abusos fosse trair alianças. Como se defender direitos humanos fosse incompatível com governar. Martin Luther King Jr. já havia nos alertado: “O que mais me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons.” O silêncio, quando institucional, legitima. Quando partidário, autoriza.
Não se trata de ignorar a dor da família do policial assassinado. Não se trata de desconsiderar o risco real enfrentado por homens e mulheres da PM. Mas não existe segurança pública sustentável sem controle, transparência e responsabilidade. O framing precisa mudar: não é “guerra ao crime”, é gestão da vida em territórios vulneráveis. É reduzir homicídios, não multiplicá-los. É salvar jovens — fardados ou não — antes que o Estado chegue apenas para recolher corpos.
O discurso oficial fala em “não haverá trégua”. A pergunta necessária é: trégua para quem? Para a inteligência policial? Para a investigação qualificada? Para o controle externo? Para a responsabilização quando houver excesso? A Defensoria Pública da Bahia reafirma a centralidade da dignidade humana e da preservação da vida. Este não é um discurso abstrato: é mandamento constitucional. Falta transformar isso em política concreta — câmeras corporais, metas de redução da letalidade policial, formação continuada, protocolos claros, transparência e dados públicos. Isso não enfraquece a polícia; fortalece sua legitimidade.
Se essa política de segurança fosse conduzida por um governo de direita, o barulho seria ensurdecedor. Por que agora o silêncio? Autoridade moral não pode ser seletiva. Quem se diz comprometido com justiça social precisa provar isso quando o custo político é alto. O gesto profético que falta não exige rompimentos teatrais, mas coragem ética: discordar, denunciar, propor mudanças. Representar o povo que sofre — inclusive o povo das periferias que conhece a violência do tráfico e do Estado.
A Bahia precisa escolher entre dois caminhos. Um, curto e barulhento, que confunde força com eficiência e acumula luto. Outro, mais difícil e responsável, que reduz a violência, preserva vidas e reconstrói a confiança entre Estado e comunidade. Justiça não tem cor partidária. Direitos humanos não são concessão ideológica. São o alicerce mínimo de qualquer sociedade que se pretenda civilizada.
Quebremos o silêncio. Não por conveniência política, mas por compromisso humano. Falo como alguém que veio do Nordeste de Amaralina, que conhece o medo e a ausência do Estado. Justamente por isso, digo: matar mais não nos tornará mais seguros. O verdadeiro medo, como ensinou Martin Luther King Jr., nasce quando os justos se calam. E já passou da hora de falar.




