
(Padre Carlos)
Finalmente, começam a aparecer as digitais do ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, no escândalo do Banco Master. O que antes era tratado como suspeita, hoje ganha contornos de evidência política e regulatória. O jornal GGN já havia apontado o caminho. Agora, o Estadão confirma: em outubro de 2023, quando se esperava rigor, fiscalização e prudência, o Banco Central fez o oposto — afrouxou regras.
Em vez de apertar o cerco diante de sinais evidentes de risco, o BC editou normas sobre precatórios que permitiram ao Banco Master não ajustar imediatamente seu balanço. Na prática, a decisão regulatória funcionou como um escudo contábil: o banco pôde adiar o reconhecimento de perdas, evitar aportes de capital, não vender ativos e seguir crescendo como se nada estivesse errado. É o tipo de intervenção que não aparece em discursos, mas pesa toneladas quando a conta chega.
Esse gesto — que muitos já chamam de “presentão regulatório” — ajudou a ocultar um problema estrutural que agora explode no colo do sistema financeiro. A pergunta que se impõe não é retórica: por que flexibilizar justamente quando a prudência exigia firmeza? Em um país marcado por crises bancárias, a função do regulador é prevenir incêndios, não trocar o extintor por cortinas.
O caso revela algo mais profundo e perigoso: a captura do regulador. Quando normas são desenhadas sob medida para aliviar um banco específico, a fronteira entre técnica e política se dissolve. A independência do Banco Central — valor essencial à estabilidade econômica — perde sentido se não vier acompanhada de responsabilidade pública, transparência e isonomia. Independência não é licença para decidir no escuro nem para beneficiar poucos em detrimento do sistema.
O efeito colateral é devastador. A postergação artificial das perdas enganou o mercado, confundiu investidores e protelou decisões duras, mas necessárias. O custo da omissão regulatória não desaparece; ele se acumula, se capitaliza e explode. Quando explode, quem paga é a confiança — ativo mais precioso de qualquer sistema financeiro.
Há, ainda, o dano institucional. O episódio lança sombras sobre a gestão de Campos Neto e sobre a governança do Banco Central no período. Não se trata de criminalizar a divergência técnica, mas de exigir explicações públicas. Por que aquela norma, naquele momento, com aqueles efeitos? Em democracias maduras, decisões dessa magnitude não passam sem escrutínio.
O Brasil precisa aprender com seus próprios erros. Regulação bancária, supervisão financeira, precatórios, balanços, capitalização, risco sistêmico — essas não são palavras técnicas distantes da vida real. São engrenagens que, quando manipuladas para ganhar tempo político, cobram juros altos da sociedade.
O escândalo do Banco Master não é um raio em céu azul. Ele foi adiado, maquiado e tolerado. Agora, com os fatos à mesa, resta ao país fazer o que não foi feito lá atrás: iluminar decisões, responsabilizar agentes e reafirmar que o interesse público deve sempre prevalecer. O silêncio regulatório, como se vê, custa caro — e a conta, invariavelmente, chega.




