
A história política brasileira, marcada por golpes, perseguições e decisões judiciais controversas, parece ter um enredo que insiste em se repetir. No centro dessa narrativa, o Supremo Tribunal Federal — a mais alta Corte do país — se torna palco de embates não apenas jurídicos, mas também ideológicos, refletindo os interesses e divisões da sociedade brasileira.
No Brasil, quem indica os ministros é o presidente da República, mas quem carrega o peso das consequências — bônus e ônus — é também o próprio presidente. Não é exagero afirmar que parte da escalada fascista e das tentativas de golpe recentes tiveram como alicerce a escolha equivocada de ministros que, em momentos cruciais, se alinharam aos interesses da elite econômica, ignorando as demandas e a defesa dos mais pobres.
A prisão de Lula, o avanço do fascismo e até mesmo o impeachment da presidenta Dilma Rousseff encontram, em retrospectiva, um ponto comum: a presença de nomes no STF que jamais tiveram histórico de compromisso com a justiça social. Foram escolhas pautadas mais por conveniências políticas e acordos de bastidores do que por critérios técnicos ou pelo compromisso de garantir que a Corte permanecesse independente e plural.
Agora, o noticiário volta a acender o alerta: durante um encontro social, o decano Gilmar Mendes revelou publicamente o nome de Rodrigo Pacheco (PSD-MG) como “candidato” para a próxima vaga no STF. A frase, dita diante do próprio Pacheco — que ouviu em silêncio — foi acompanhada de um argumento: “O STF é jogo para adultos”. É curioso notar que “jogo” é a palavra perfeita para definir como as cadeiras da Suprema Corte são tratadas: como peças de um tabuleiro político, não como guardiãs da Constituição.
O problema é que o país não pode mais cometer os mesmos erros. Um Supremo fechado em si mesmo, dominado por figuras que transitam confortavelmente entre os salões da burguesia, estará sempre distante da vida real do povo. E um STF que se alinha aos poderosos em detrimento da justiça social é um risco não apenas à democracia, mas à própria estabilidade institucional.
Se o Brasil quiser, de fato, evitar novos ciclos de autoritarismo e rupturas democráticas, precisa romper com a tradição de indicações feitas a portas fechadas, durante coquetéis e jantares políticos. É hora de exigir transparência, critérios técnicos, compromisso com os direitos humanos e, acima de tudo, coragem para enfrentar o poder econômico quando este ameaçar os princípios da Constituição.
A pergunta que fica é: vamos aprender com a história ou continuaremos a repetir os mesmos erros, esperando resultados diferentes? Porque, se a escolha de hoje repetir a lógica de ontem, o amanhã já está escrito — e não será um futuro que o povo brasileiro deseja.




