
(Padre Carlos)
O Natal se aproxima e, com ele, a velha e inquietante pergunta: em que nos transformamos como humanidade? A cada ano, a sociedade de consumo nos empurra para um ritual frenético de compras compulsivas — vitrines iluminadas, anúncios sedutores, promoções irresistíveis, parcelamentos até o infinito, temos certeza da compra só precisamos definir é se a escolha será entre Shopee ou Mercado Livre a dúvida persiste. Mas o brilho do comércio esconde algo sombrio: um vazio existencial crescente, típico de um materialismo niilista que promete felicidade e entrega apenas ansiedade, alienação e lágrimas silenciosas. Nunca se consumiu tanto. E nunca se foi tão infeliz.
O ser humano é um ser do tempo. Carregamos o passado que nos precede, habitamos o presente que nos atravessa e nos projetamos no futuro que ansiamos. A identidade humana é feita de memória, consciência e esperança. No entanto, neste tempo natalício, vemos muitos aprisionados em um único tempo — seja no passado idealizado, no presente hedonista ou no futuro messiânico. Aqueles que vivem apenas do passado dizem nostalgicamente: “antigamente é que era bom”. Os que fazem do presente a sua religião vivem como se o agora fosse eterno. Já os sonhadores do futuro vivem esperando a vida começar, porém ela nunca começa porque nunca chega.
O verdadeiro drama espiritual do nosso tempo não está na falta de tecnologia ou de informação — mas de transcendência. Somos, como disse a professora de literatura portuguesa Helena Buescu, “herdeiros e futurantes”, e essa condição deveria nos levar a viver o presente com dignidade e intensidade, iluminados pelo passado e animados pela esperança. Mas a lógica do consumo sequestrou a esperança e a transformou num mecanismo de mercado: espera-se a próxima compra, a próxima entrega, o próximo modelo, o próximo “lançamento irresistível”. A esperança foi reduzida a desejo, e o desejo a mercadoria.
E quando a felicidade depende exclusivamente da posse, ela se torna impossível — porque tudo o que se possui pode perder-se. Espinosa estava certo: “não há esperança sem temor, nem temor sem esperança.” A esperança humana é ambígua, frágil e inquieta. Mas viver apenas para o futuro seria adiar para sempre o direito de viver. E viver apenas o presente seria reduzir a vida ao instinto animal. A arte da vida consiste em articular passado, presente e futuro: aprender do passado, viver o presente, esperar um futuro de plenitude.
O Advento — nesse tempo de consumismo agressivo — é um grito de contraste. Ele nos recorda que o Natal não é uma festa do cartão de crédito, mas da encarnação: da chegada do Eterno ao tempo, da irrupção do sentido no meio do absurdo. Somos convidados a reencontrar algo que a publicidade não vende: a esperança radical. Ernst Bloch chamou o nosso tempo de uma era de “subprodução de transcendência”. Mas talvez seja justamente aqui que o Advento se torna mais necessário: não como fuga, mas como afirmação de sentido contra o vazio.
A fé cristã, conclui o Apocalipse com um anúncio: “Eis que faço novas todas as coisas.” Estamos, portanto, diante de duas saídas existenciais: ou o nada ou a esperança. E a esperança não é escapismo — é o motor da dignidade humana. Ela recusa aceitar o absurdo como destino.
Neste Natal, diante de uma humanidade ansiosa, sufocada pelo consumismo e esvaziada de sentido, talvez a pergunta mais urgente seja: queremos viver como consumidores insaciáveis ou como seres humanos? O nascimento de Cristo recorda que a felicidade não está à venda e que a vida não cabe numa embalagem. O Natal é a celebração da certeza de que o amor é maior do que a morte, de que o sentido é mais forte do que o nada e de que o futuro não está condenado a repetir o desespero do presente.
Se o mundo hoje sofre de falta de transcendência, o Natal não é um evento nostálgico — é um antídoto. E este tempo só recuperará sua grandeza quando o coração humano acordar do transe consumista e redescobrir aquilo que nenhuma loja vende: o mistério de existir, a coragem de amar e a esperança de viver.




