
Por Padre Carlos
Os deuses da política brasileira possuem um senso de humor peculiar. Não se trata daquele humor refinado dos grandes dramaturgos gregos, mas de uma espécie de comédia tropical em que o improvável acontece com tamanha frequência que acaba parecendo rotina administrativa.
Depois de décadas observando os movimentos do poder em Brasília, ainda me surpreendo com certas coincidências que desafiam qualquer estatística razoável. Algumas delas são tão rápidas e eficientes que fariam corar de inveja órgãos públicos conhecidos por sua lentidão quase geológica.
Foi exatamente o que ocorreu quando uma pesquisa eleitoral passou a ocupar o centro das atenções nacionais. O levantamento apontava uma queda significativa na popularidade do senador Flávio Bolsonaro após a divulgação de notícias envolvendo o financiamento do filme Dark Horse e a repercussão de áudios amplamente divulgados pela imprensa.
Até aí, nada de extraordinário. Pesquisas registram humores. Humores mudam. Escândalos produzem reações. A democracia funciona justamente porque a opinião pública não é uma peça de mármore imóvel, mas um organismo vivo que responde aos acontecimentos.
O extraordinário veio depois.
Em tempo recorde, o Partido Liberal questionou judicialmente o levantamento, alegando que a formulação das perguntas teria induzido os entrevistados a respostas negativas. Eis uma tese fascinante. Segundo essa lógica, mencionar fatos amplamente conhecidos pelo público seria uma forma de manipulação.
A questão que emerge é simples: desde quando a realidade se transformou em elemento contaminador de pesquisa?
Se um escândalo é público, se está nos jornais, nas redes sociais, nos debates políticos e nas conversas de esquina, seria metodologicamente correto fingir que ele não existe? O eleitor não vive numa cápsula hermeticamente fechada. Ele forma suas opiniões justamente a partir das informações que recebe diariamente.
Mas o debate metodológico talvez seja a parte menos interessante dessa história.
O aspecto mais delicado reside na percepção pública sobre a imparcialidade das instituições. E aqui mora um problema que deveria preocupar qualquer democrata, independentemente de sua preferência ideológica.
A presidência do Tribunal Superior Eleitoral está agora sob responsabilidade do ministro Cássio Nunes Marques, tendo como vice o ministro André Mendonça. Ambos chegaram ao Supremo Tribunal Federal por indicação do ex-presidente Jair Bolsonaro.
É evidente que a Constituição não estabelece impedimento automático para ministros julgarem matérias relacionadas a governos que os indicaram. Nem poderia. O sistema institucional brasileiro não funciona dessa maneira.
Mas existe algo chamado confiança pública.
A Justiça não deve apenas ser imparcial. Ela deve parecer imparcial aos olhos da sociedade.
Quando processos politicamente sensíveis envolvendo figuras ligadas ao grupo político responsável pelas indicações chegam justamente ao tribunal comandado por esses magistrados, inevitavelmente surgem questionamentos. Não porque exista prova de favorecimento, mas porque a credibilidade das instituições depende também da aparência de independência.
A democracia é sustentada por uma matéria-prima invisível chamada confiança.
Quando essa confiança se desgasta, começam a prosperar teorias conspiratórias, suspeitas permanentes e a corrosão gradual da legitimidade institucional.
O mais curioso é que, no Brasil, muitas crises poderiam ser evitadas com um simples exercício de prudência republicana. Entretanto, frequentemente escolhemos o caminho oposto: aquele que produz manchetes, alimenta suspeitas e fortalece a sensação de que determinadas estruturas do Estado operam sob permanente conflito de interesses.
O resultado é uma espécie de teatro político em que cada decisão judicial passa a ser interpretada não pelo seu conteúdo, mas pela identidade de quem a profere.
Isso é péssimo para todos.
É ruim para os investigados, que passam a conviver com suspeitas eternas.
É ruim para os tribunais, que veem sua autoridade questionada.
E é péssimo para a democracia, que depende da confiança coletiva na neutralidade das regras do jogo.
No fim das contas, talvez a grande tragédia brasileira não seja a existência das coincidências. Coincidências acontecem.
O problema surge quando elas se acumulam em quantidade suficiente para parecerem menos coincidências e mais método.
E então o cidadão comum, observando tudo da arquibancada, já não sabe se está assistindo a uma sessão solene da República ou a mais um capítulo de uma interminável ópera bufa nacional.
Uma ópera em que a realidade, muitas vezes, parece ser o personagem mais inconveniente do roteiro.




