Política e Resenha

ARTIGO – “O Último Pedido de Um Policial Que Já Não Está Vivo”

 

 

 

 (Padre Carlos)

Há textos que atravessam a carne. Há histórias que, quando lidas, nos obrigam a respirar mais fundo, como se o coração tivesse sido convocado a escutar antes mesmo do cérebro compreender. O relato do policial militar Roger — o Sargento Dias — é um desses. Não é simplesmente uma carta. É um epitáfio vivo, uma denúncia, uma acusação e, antes de tudo, um grito de amor pela família, pela profissão e pelo país.

“Na próxima semana eu completaria 30 anos de vida.”
Ele mesmo corrige: não vai completar.
Foi baleado na cabeça horas antes de “falar” com os senadores. E mesmo assim segue ali, “de pé”, discursando com a noção dolorosa de que já não respira, já não volta para casa, já não abraça a própria filha de quatro meses — Antonella, que jamais terá um Dia dos Pais.

Esse é o Brasil real, o Brasil que raramente aparece nas novelas, nos discursos acadêmicos confortáveis, nas teses jurídicas produzidas em ar-condicionado. Esse é o país em que o criminoso reincidente, armado e violento recebe benefícios; e o policial, que arrisca a vida por desconhecidos, recebe uma bandeira sobre o caixão.

Roger expõe sem rodeios o conflito diário: a cobrança por metas de combate ao crime é imensa, mas a segurança jurídica para trabalhar não existe.
Um disparo a mais pode virar processo; um disparo a menos pode virar lápide.

Naquela noite, o instinto policial mandou abordar.
Mas o medo das consequências — alimentado por entendimentos jurídicos que paralisam quem combate o crime — atrasou o segundo fatal.
E então dois tiros atravessaram seu rosto.
Depois disso, silêncio. E fim.

O assassino?
Reincidente. Já preso várias vezes.
E estava em liberdade graças à saídinha — o golpe legal travestido de benefício que, em nome de um “direito humanista”, garante apenas a continuidade da violência.

No enterro de Roger não haverá “saídinha”.
Nesse tipo de prisão, visita não existe.

E aqui está o ponto onde o texto fere mais:
Ele não escreve pedindo por ele — escreve por quem fica.
Pelos companheiros que amanhã enfrentarão o mesmo criminoso que hoje foi solto.
Pela sociedade que paga o preço da impunidade.
Pela esposa que recebeu a notícia antes do abraço.
Pela filha que perderá para sempre o direito de dizer “papai”.

Se existe algo que desmoraliza uma nação é quando ela protege mais quem destrói do que quem defende.

Por isso, este artigo é um apelo:
O projeto que põe fim às saídinhas não é pauta partidária.
É pauta moral.
É pauta de sobrevivência.
É pauta para dizer aos brasileiros que seu país não desistiu deles.

O homicídio de Roger não pode ser apenas mais um.
Não pode ser estatística, não pode ser cerimônia militar, não pode ser manchete de um único dia.
Que esse texto ecoe no Congresso, nas famílias, nos quartéis, nas escolas, nos jornais e nas redes sociais.
Que repita até cansar, até que ninguém tenha coragem de ignorar:

Quem protege criminosos fabrica caixões.
Quem protege policiais protege a sociedade.

A última palavra de um homem que está morto ainda é um pedido.
Resta saber se quem está vivo vai escutar.