Política e Resenha

ARTIGO — O XADREZ CONTRA JOÃO ROMA

 

Padre Carlos

 

Na política, às vezes não é preciso uma derrota nas urnas para que um líder comece a perder poder. Basta que as peças do tabuleiro comecem a se mover silenciosamente em outra direção. É exatamente esse movimento que parece se formar agora em torno do ex-ministro João Roma, uma das figuras mais visíveis do PL na Bahia e nome que vinha sendo apontado como possível candidato ao Senado na chapa liderada por ACM Neto nas eleições de 2026.

Nos últimos dias, a temperatura política subiu em Brasília e em Salvador após a repercussão do caso envolvendo o Banco Master. O episódio, que ganhou contornos de escândalo político e financeiro, colocou Roma em uma posição delicada. A convocação do ex-ministro para depor na CPI do Crime Organizado elevou o nível de pressão dentro do partido e abriu espaço para um movimento silencioso de rearrumação de forças.

Na política, reputação é moeda. E quando essa moeda começa a sofrer desvalorização pública, aliados rapidamente passam a calcular riscos. O temor dentro do Partido Liberal é simples: qualquer desgaste prolongado pode contaminar o projeto eleitoral do grupo na Bahia.

É nesse ponto que o jogo se torna mais complexo.

Nos bastidores de Brasília, nomes influentes da política nacional já discutem a possibilidade de reconfigurar o comando do PL no estado. Não se trata apenas de uma disputa interna por poder partidário. O que está em jogo é a estratégia para 2026, um pleito que promete ser um dos mais intensos da história recente da política baiana.

A avaliação entre aliados de ACM Neto é pragmática. Caso a crise envolvendo o Banco Master avance e produza novos desdobramentos políticos ou judiciais, manter João Roma como peça central da chapa poderia se transformar em um risco eleitoral. Em política, grupos costumam agir preventivamente para evitar que um problema localizado se transforme em uma crise maior.

Assim, começa a circular a hipótese de que Roma poderia perder não apenas o comando estadual do PL, mas também o lugar reservado para ele na disputa ao Senado.

Ainda não existe uma liderança clara por trás da articulação que tenta enfraquecer o ex-ministro. A movimentação, segundo relatos de bastidores, reúne atores de diferentes correntes políticas. Isso indica que a questão pode ultrapassar rivalidades partidárias tradicionais e entrar no campo mais amplo da disputa por influência dentro da direita brasileira.

A política da Bahia sempre foi marcada por rearranjos repentinos. Lideranças sobem rapidamente, mas também podem perder espaço quando novas correlações de força surgem. Nesse cenário, João Roma se encontra hoje diante de um teste clássico do poder: resistir à tempestade ou se tornar uma peça substituível no grande tabuleiro eleitoral.

Se a articulação prosperar, o episódio poderá redesenhar não apenas o futuro de Roma, mas também o equilíbrio interno da oposição baiana. Afinal, uma chapa majoritária é construída com base em dois pilares fundamentais: viabilidade eleitoral e segurança política.

Quando um desses pilares começa a tremer, o edifício inteiro entra em revisão.

A pergunta que ecoa agora nos corredores do poder é simples, mas decisiva: João Roma conseguirá sobreviver politicamente a essa crise ou estamos assistindo ao início de uma silenciosa substituição no tabuleiro das eleições de 2026 na Bahia?

Na política, como no xadrez, muitas vezes a derrota começa antes mesmo do xeque-mate.