Política e Resenha

ARTIGO – Os velhos militantes e a esquerda que se perdeu de si mesma – (Padre Carlos)

 

 

Há uma fotografia esquecida em alguma parede, gaveta ou fundo de baú. Nela, rostos suados de esperança, mãos erguidas em plenária, a alegria simples dos forrós improvisados para arrecadar uns trocados de campanha. Essa imagem congelada no tempo revela algo que se esvaiu: o espírito coletivo de uma esquerda que já foi movimento, corpo, calor humano — e que hoje é, cada vez mais, cálculo, pragmatismo e distanciamento.

O Partido dos Trabalhadores, fundado com suor de metalúrgico, fé de pastoral e rebeldia estudantil, transformou-se num gigante institucional. Mas nesse processo, abandonou muitas de suas raízes. Deixou para trás companheiros que deram a vida — no chão da fábrica, nos comitês populares, nas caminhadas por Conquista — para que hoje houvesse partido, bancada, governo.

A história da esquerda brasileira, não apenas do PT, é marcada por sucessivos rachas. Cada divisão parecia, à primeira vista, ideológica. Mas no fundo, foram sempre os egos feridos, as vaidades magoadas, a falta de escuta e a fome de protagonismo que cavaram abismos. A esquerda, que se diz libertária, é, paradoxalmente, uma das forças políticas mais desagregadoras da história. Nela, companheiros viram adversários com uma velocidade assustadora — e não por ideias, mas por ressentimentos.

Quem viveu os anos 80 e 90 em Vitória da Conquista lembra bem. Os comitês fervilhavam cultura e política. Havia forrós para arrecadar fundos e encontros que rendiam mais que alianças: rendiam amores. Tenho uma amiga que encontrou seu companheiro nesses arraiais da militância — e estão casados até hoje. Era comum sair da panfletagem para dançar um xote embaixo de lona de circo, com fogueira e cachaça. O coletivo era lar.

E onde estão agora os que foram protagonistas dessa história?

Onde está Carlos Luna, Dudu, Kaká, G2, Rivaldo, Wilton Cunha, Almir,Maria do Carmo, Detão, Flávio, Clóvis Carvalho? Onde estão Zé Carlos e tantos outros que construíram o que o PT foi em Conquista e na Bahia? Uns partiram, outros foram silenciados, outros se afastaram. Há quem tenha se decepcionado, há quem tenha sido descartado. Mas todos foram importantes. Todos são parte dessa história que teimam em apagar.

Essa juventude envelhecida — entre os 50 e 70 anos — carrega cicatrizes e histórias. Precisamos convocá-los não para o palanque, mas para a memória. Porque sem memória, não há política. E sem política, não há transformação.

Resgatar a figura do militante não é saudosismo. É resistência. É lembrar que o sujeito político não é só um número no sindicato ou uma assinatura na filiação partidária. É um ser de carne e osso, com utopias, frustrações, amor e fé no povo.

Não se faz história sem sujeitos. E não se constrói futuro sem reconhecer quem nos trouxe até aqui.