Política e Resenha

ARTIGO – Osvaldão: quando a memória resiste ao silêncio da ditadura

 

(Padre Carlos)

Há datas que não passam. Elas ficam. Ficam como uma dor que amadurece, como um nó antigo na garganta da história. O dia 4 de fevereiro de 1974 é uma dessas datas. Há 52 anos, o regime militar assassinava brutalmente Osvaldo Orlando da Costa, o Osvaldão. Mas o que os porões da ditadura jamais conseguiram foi matar o que ele simboliza.

Osvaldão não cabe em uma biografia seca, dessas que alinham fatos como quem empilha papéis. Ele é feito de carne, suor, coragem e escolhas. Mineiro de Passa Quatro, comunista por convicção, engenheiro por vocação, atleta por disciplina, revolucionário por consciência. Um homem que poderia ter escolhido o conforto da técnica, a previsibilidade da carreira, o silêncio cúmplice de tantos. Preferiu a trilha mais íngreme: a da resistência.

Sua trajetória é, por si só, uma aula sobre o Brasil profundo. Entre São Paulo e Rio de Janeiro, construiu formação sólida, técnica e intelectual. Tornou-se campeão carioca de boxe pelo Botafogo, forjou o corpo no rigor do esporte e a mente na disciplina militar, chegando a oficial da reserva do Exército pelo CPOR. A ironia histórica é brutal: o mesmo Estado que o treinou foi o que o perseguiu e assassinou.

Na antiga Tchecoslováquia, em Praga, Osvaldão mergulhou na engenharia de minas e na experiência internacional do socialismo real. Ali, sua presença foi tão marcante que inspirou o escritor Cyprian Ekwensi a escrever O homem que parou a cidade. Um título quase profético. Osvaldão parava cidades porque sua existência deslocava consciências. Ele obrigava o mundo ao redor a se perguntar: de que lado da história eu estou?

Com o golpe de 1964, veio a clandestinidade. E com ela, a decisão radical de não recuar. Militante do PCdoB, foi o primeiro quadro do partido a chegar ao Araguaia, ainda entre 1966 e 1967. Ali, no coração da floresta, nasceu o mito. Com quase dois metros de altura, força física impressionante e um carisma raro, Osvaldão virou referência entre os camponeses, ribeirinhos e companheiros de luta. Era respeitado porque ajudava, protegia, ensinava. Era temido pelos militares porque não se dobrava.

A Guerrilha do Araguaia não foi um delírio romântico, como tentaram vender os manuais da repressão. Foi uma resposta histórica a um regime que fechou o Congresso, censurou a imprensa, torturou corpos e tentou domesticar consciências. Osvaldão e seus companheiros enfrentaram um dos períodos mais sombrios da ditadura militar no Brasil. Foram caçados, exterminados, apagados dos registros oficiais. Mas não da memória popular.

O assassinato de Osvaldão foi mais do que a eliminação de um líder. Foi uma mensagem. O regime queria ensinar pelo terror. Queria dizer que sonhar custa caro, que resistir dói, que lutar tem preço. O que não previu é que a morte, quando injusta, transforma-se em semente.

Hoje, 52 anos depois, o Brasil ainda disputa sua memória. Ainda há quem relativize a ditadura, minimize a repressão, trate torturadores como personagens folclóricos. É por isso que lembrar Osvaldão não é um exercício nostálgico. É um ato político, ético e profundamente humano. Memória histórica não é revanchismo; é vacina contra a repetição da barbárie.

Osvaldão nos ensina que coragem não é ausência de medo, é decisão. Que justiça social não nasce do acaso, nasce do compromisso. Que democracia não se herda pronta, constrói-se com sangue, suor e esperança. Seu corpo tombou no Araguaia, mas sua história atravessou o tempo, rompeu o silêncio imposto e chegou até nós como um chamado.

Enquanto houver desigualdade gritante, autoritarismo disfarçado e tentativa de reescrever o passado, Osvaldão seguirá vivo. Vivo na luta por direitos humanos, na defesa da democracia, na recusa em esquecer os crimes da ditadura militar. Há homens que morrem. Há outros que se tornam consciência. Osvaldão é destes últimos.