Política e Resenha

ARTIGO – Otto Alencar, o Craque que Saiu do Banco e Mudou o Jogo da Política Baiana

 

 

Padre Carlos

 

Na política, como no futebol, há jogadores que não precisam correr o tempo todo para definir uma partida. Basta entrar em campo no momento certo, tocar na bola com inteligência e reorganizar o time. Otto Alencar é exatamente esse tipo de craque. Estava no banco — no confortável e estratégico Tribunal de Contas dos Municípios — quando a Bahia entrou em um momento crítico do jogo político. Sua entrada não foi apenas necessária; foi decisiva para colocar ordem no campo e redefinir o rumo da partida.

Quando o ex-ministro Geddel Vieira Lima (MDB) desembarcou da aliança com o PT baiano, o governador Jaques Wagner não tinha muitas opções. A saída do MDB abriu um vazio político perigoso em plena transição histórica. A morte de Antônio Carlos Magalhães havia encerrado o ciclo carlista, mas o que viria depois ainda era incerto. Era preciso alguém com leitura de jogo, lastro político e capacidade de articulação para evitar que a Bahia caísse em um vácuo de poder. Foi nesse contexto que Wagner apostou no reingresso político de Otto Alencar, então conselheiro do TCM e ex-governador.

O fim do carlismo não representava apenas a queda de um líder forte; significava o encerramento de uma autocracia política centralizada em uma figura pessoal. A chamada transição pós-carlista abriu caminho para algo mais complexo: a democratização social e política da Bahia, com um modelo de democracia multipartidária alinhado ao cenário nacional. Mas toda transição traz riscos, e foi exatamente esse ambiente que estimulou Geddel a se lançar como uma terceira via na eleição de 2010.

Os números daquela eleição são reveladores. Geddel ficou em terceiro lugar com 15,56%, muito próximo do segundo colocado, Paulo Souto (PFL), que alcançou 16,09%. Ainda assim, Jaques Wagner saiu como o grande vencedor, reelegendo-se com expressivos 63,38% dos votos válidos. O detalhe estratégico, muitas vezes subestimado, foi a eleição de Otto Alencar como vice-governador na chapa petista. Sua presença recompôs a musculatura política do governo e neutralizou o impacto da saída do MDB.

Otto não entrou apenas para compor. Ele reorganizou o meio de campo. Os dados eleitorais mostram isso com clareza. Em 2004, o PP foi o quarto partido mais votado da Bahia, com 9,67% dos votos para prefeito. Em 2008, o MDB liderou com 24,77%, enquanto o PP caiu para 6,72%. Já em 2012, o PP voltou ao quarto lugar com 10,55%, mas o verdadeiro fato novo foi o surgimento do PSD, fundado e liderado por Otto Alencar, que já em sua primeira eleição obteve surpreendentes 9,57% dos votos.

A partir daí, o PSD deixou de ser promessa e virou realidade. Em 2016, consolidou-se como uma máquina eleitoral, tornando-se o segundo partido mais votado para prefeito na Bahia, com 12,50%. Em 2020, o salto foi ainda maior: 18,86% dos votos, superando o PT, que ficou com 13,66%, e o PP, com 12,99%. Somados, PT, PSD e PP concentraram 45,51% dos votos no estado, um dado que revela o centro de gravidade da política baiana.

Chegamos, então, a 2026, com a base governista testando novamente a fórmula do equilíbrio entre PT e PSD e uma chapa puro-sangue para o Senado. O racha provocado pela saída de Angelo Coronel para a oposição escancara uma contradição histórica da política baiana: alianças amplas funcionam bem enquanto há espaço para todos; quando o funil aperta, a disputa interna se torna inevitável. Coronel, senador em exercício, foi preterido em nome de uma chapa exclusivamente petista, ainda que chancelada pelo PSD. O recado é claro: a lógica do projeto nacional falou mais alto que a acomodação das forças locais.

Otto Alencar, ao endossar essa decisão, assume o ônus de segurar o partido unido. Mas o tabuleiro está mais complexo. Além disso, Avante e MDB, agora sob a liderança do vice-governador Geraldo Júnior, buscam ampliar protagonismo, o que inevitavelmente gera disputas entre aliados. Caberá ao governo estadual — e aqui Otto volta a ser peça-chave — organizar chapas, mediar conflitos e evitar confrontos desnecessários que fragilizem o projeto maior.

No fim das contas, o jogo não é apenas uma vaga no Senado. O verdadeiro campeonato é o governo federal, o governo Lula. E, como todo bom técnico sabe, não se ganha um título sem um craque que pense o jogo. Otto Alencar mostrou que, mesmo saindo do banco, foi capaz de mudar a dinâmica da partida, distribuir o jogo político com inteligência e manter a Bahia em equilíbrio em um cenário de alta competição eleitoral. Na política baiana, ele não é coadjuvante: é o camisa 10 do tabuleiro.