
(Padre Carlos)
Há políticos que pensam com a cabeça. Outros calculam com planilhas, estratégias e conveniências. E há raros homens públicos que fazem política com o coração — não como metáfora vazia, mas como método de vida. Otto Alencar é desses. E talvez por isso, justamente por isso, seu coração agora nos convoque a uma reflexão mais profunda sobre humanidade, poder e dor.
O coração, sabemos, não é apenas uma bomba biológica. É memória, afeto, perda, fidelidade. É onde a política deixa de ser discurso e se transforma em compromisso humano. A internação do senador baiano Otto Alencar, após uma cirurgia cardíaca preventiva para implantação de um marca-passo no Hospital Aliança, em Salvador, não é apenas um fato médico. É um símbolo poderoso de uma trajetória política que nunca se permitiu ser indiferente à dor do outro.
Segundo boletim médico oficial, o procedimento transcorreu com sucesso. O diagnóstico de bradicardia — baixa frequência dos batimentos cardíacos — foi identificado após o retorno de uma agenda política em Lapão, no interior da Bahia. Otto sentiu-se mal, procurou atendimento médico e fez o que sempre fez na vida pública: enfrentou o problema de frente, com responsabilidade e serenidade. Está clinicamente estável, em observação na UTI Cardíaca, seguindo rigorosamente os protocolos médicos. O corpo está sob cuidados. Mas o coração… o coração sempre esteve exposto.
Se Otto fosse apenas um político que faz política com a cabeça, fria e blindada, talvez não estivesse passando por isso. Políticos assim não sofrem perdas, não carregam lutos, não sentem o peso dos companheiros que ficaram pelo caminho. Eles seguem, incólumes, protegidos por couraças de pragmatismo. Mas Otto é diferente. Ele sente. Ele lembra. Ele sofre. E isso dói.
A dor dos últimos dias não é apenas física. É também a dor de quem atravessou décadas de vida pública sem abandonar a dimensão humana da política. A dor de quem viu amigos partirem, projetos serem interrompidos, sonhos coletivos serem adiados. A dor de quem não transforma aliados em descartáveis nem a política em um jogo sem rosto. Otto carrega no peito a memória viva de uma geração que acreditou que governar era, antes de tudo, cuidar de gente.
Há uma analogia inevitável aqui: o marca-passo que agora regula o ritmo do coração de Otto Alencar lembra que nenhum coração humano bate sozinho. Ele precisa de ajuste, de cuidado, de tempo. Assim também é a política que nasce do coração: ela não é perfeita, mas é viva. Não é isenta de falhas, mas é verdadeira. Não é imune à dor, mas é profundamente humana.
Em tempos de política desumanizada, de discursos vazios e guerras digitais, a trajetória de Otto Alencar reafirma uma verdade incômoda e necessária: sentir é um risco, mas também é uma virtude. Fazer política com o coração cobra seu preço. O corpo sente. A alma sente. Mas é esse preço que separa os que apenas ocupam cargos dos que constroem legado.
Que a recuperação do senador Otto Alencar seja breve e plena. Que o coração, agora assistido pela tecnologia, continue batendo no mesmo compasso de sempre: o da empatia, do compromisso público, da lealdade aos seus e da escuta atenta ao povo da Bahia. Porque a política pode até ser feita com a cabeça. Mas só transforma de verdade quando nasce do coração.




