Política e Resenha

ARTIGO – Palavras Gastas, Amor Perdido

 

(Padre Carlos)

Gastamos as palavras pelas ruas, meu amor. Como moedas esquecidas, deixamos cair pedaços de nós em cada esquina, em cada conversa sem retorno. Hoje, o que restou não basta para afastar o frio de quatro paredes. É o silêncio que se instala onde antes morava a música.

Gastamos tudo — menos o silêncio.
Gastamos as mãos na força de nos apertarmos, como quem segura um mundo prestes a desabar. Gastamos os olhos com o sal das lágrimas. Gastamos até o tempo, nas esperas inúteis que o coração insistia em acreditar.

Meto as mãos nos bolsos e encontro apenas o vazio. Antigamente, havia tanto para dar: bilhetes apressados, promessas ditas ao pé do ouvido, pequenos gestos que faziam a vida parecer eterna. Era como se nossa história de amor fosse um rio que não conhecia seca.

Você dizia:
“Seus olhos são como peixes verdes.”
E eu acreditava.
Acreditava porque ao seu lado, todas as coisas eram possíveis. No tempo dos segredos, seu corpo era um aquário onde meus sentimentos profundos nadavam livres.

Hoje, são apenas olhos. Comuns. Sem maré.
Já gastamos as palavras.
Quando digo “meu amor”, não sinto estremecer nada. Não há sede dentro de você que me peça água.

O fim de relacionamento chegou como o inverno: lento, inevitável, e ainda assim gelando tudo. O passado… o passado é inútil como um trapo esquecido.

O amor perdido deixou apenas lembranças que doem.
E o que nos resta, meu amor, é o silêncio.

Adeus.