Política e Resenha

ARTIGO – Política, Facção e Presídio: O Tríplice Inferno da Vergonha Baiana

 

(Padre Carlos)

A Bahia, mais uma vez, se vê mergulhada no pântano turvo da mistura entre política e criminalidade. E quando o cheiro pútrido do poder podre começa a escapar das celas trancadas de um presídio, não há nota oficial que oculte a podridão que corrói as instituições. A denúncia do Ministério Público da Bahia contra o ex-deputado federal Uldurico Júnior, por supostas conexões com uma facção criminosa, revela muito mais do que uma trama de bastidores. Ela expõe, de forma nua e crua, como o crime e o poder andam de mãos dadas quando a ética é esquecida nas urnas e nos gabinetes.

O nome de Uldurico surge como o “padrinho político” de Joneuma Silva Neres, ex-diretora do Conjunto Penal de Eunápolis, envolvida até o pescoço com o Primeiro Comando de Eunápolis (PCE) — organização criminosa com laços diretos com o temido PCC. Essa mulher, nomeada por apadrinhamento político, não só foi colocada em um cargo de responsabilidade pública como também — segundo o MP — manteve um relacionamento amoroso com o líder da facção. Um vínculo afetivo que se transformou em aliança funcional entre a estrutura do Estado e o crime organizado.

Não se trata apenas de um caso isolado. Trata-se de uma ferida aberta em nosso sistema político e penitenciário. Um presídio transformado em gabinete paralelo onde encontros entre criminosos e representantes políticos ocorriam longe dos olhos das câmeras, protegidos por protocolos violados e pela certeza de impunidade.

O ex-deputado, que nas urnas coleciona derrotas consecutivas — a última delas na disputa pela prefeitura de Teixeira de Freitas — agora enfrenta um julgamento mais grave: o da opinião pública, que assiste atônita ao surgimento de novas provas e revelações. Sua justificativa — de que esteve no presídio para discutir “direitos humanos” — soa cínica diante do nível de sofisticação e sigilo relatado pela denúncia. Que tipo de direito humano é negociado em encontros secretos com líderes de facção, sem registro, sem transparência, sem testemunhas?

O mais grave, contudo, não é a denúncia em si, mas o padrão que ela confirma. A banalização das nomeações políticas em cargos sensíveis. A permissividade com que a política se rende ao crime para manter influência, voto e controle territorial. A verdade é que enquanto cargos públicos forem utilizados como moeda de troca, o Estado será cada vez mais refém daqueles que o violam por dentro.

Esta não é apenas uma denúncia. É um grito de alerta. Ou enfrentamos com firmeza essa simbiose perversa entre política e facção, ou em breve não saberemos mais onde termina o poder legítimo e onde começa o império da criminalidade institucionalizada.

O povo da Bahia merece mais. Merece políticos que tenham vergonha na cara, não vergonha nas páginas policiais. Merece uma justiça que vá até o fim, doa a quem doer. E merece — acima de tudo — o fim do silêncio conivente que por décadas vem sustentando os bastidores desse teatro macabro de corrupção e violência.

O caso Uldurico pode ser o início de uma faxina ou o prenúncio de mais uma pizza servida em bandeja institucional. A escolha é nossa — como sociedade, como eleitores, como cidadãos.

E que não digam depois que não sabíamos.