A cena final em que Odete Roitman, a grande vilã de Vale Tudo, não apenas sobrevive ao tiro como consegue simular a própria morte e fugir do país, deixou mais do que um burburinho televisivo: gerou um espelho desconfortável do que estamos aceitando como sociedade. A novela histórica e o remake convergem num ponto cruel — a narrativa expõe que poder, influência e dinheiro criam atalhos que a justiça formal nem sempre consegue perseguir. Essa fatura não é apenas dramatúrgica; é cultural.
Quando a mídia transforma o enredo em debate público, ela pode tanto iluminar quanto anestesiar. Ao reproduzir com fúria a polarização entre “merece castigo” e “merece clemência”, parte do jornalismo alimenta um teatro de exceções: normaliza-se o desejo de vingança e, ao mesmo tempo, relativiza-se o processo judicial. O risco é nítido — se a narrativa coletiva passa a imaginar que ‘quem tem dinheiro pode tudo’, o imaginário social assimilado é o da impunidade latente, e isso corrói a confiança nas instituições.
Há uma lógica psicológica por trás da comoção: precisamos de finais morais que nos reajustem o mundo. Vemos isso nas discussões públicas — o clamor por “justiçamento” é, em essência, uma busca de restauração emocional. Filosoficamente, contudo, esse clamor enfrenta um limite ético: aceitar o assassinato como punição, ou apoiar soluções extrajudiciais, equivale a declarar que a sociedade abdica do princípio de legalidade. Ao celebrar um castigo sem julgamento, entramos numa via que termina onde começa o esquadrão da morte. É uma regressão civilizacional.
Pergunto, então: por que deixamos Odete escapar? Porque, ao reagirmos com paixão e espetáculo, confundimos catarse com justiça. Porque parte da mídia transforma crime e punição em entretenimento e, nesse processo, dessensibiliza. Porque uma cultura que tolera atalhos de poder, que admira a esperteza que dribla a lei, está permitindo — simbólica e efetivamente — que o crime “compense”. O perigo maior não é somente Odete escapar na ficção, mas a naturalização dessa lógica fora das telas.
Se existe uma lição, ela não é sobre quem matou ou deixou escapar uma vilã: é sobre nós — nossa capacidade de resistir ao desejo imediato por vingança e de reafirmar que justiça é processo, não espetáculo. Se aceitarmos a impunidade, se aplaudirmos o justo a partir do tribunal das redes, seremos cúmplices de uma erosão maior: a perda da noção de que nenhum cidadão, por mais poderoso, pode estar acima da lei.





