Política e Resenha

ARTIGO – Prestes, o Muro de Berlim e a Utopia que Não Morre

 

 

(Padre Carlos)

Há anos que moldam épocas inteiras, e há dias que quebram séculos ao meio. 1989 foi um desses raros instantes em que a história estremeceu como se respirasse mais fundo antes de mudar de direção. A queda do Muro de Berlim — um feriado inesperado da humanidade — parecia anunciar o fim de ideologias, de fronteiras e de sonhos que durante décadas moveram povos, causaram guerras, alimentaram esperança e também dor. Era como se o mundo, subitamente, tivesse decidido trocar de pele.

Sempre volto à frase de Machado de Assis: “Há pessoas que choram por saber que rosas têm espinhos. Há outras que sorriem por saber que espinhos têm rosas.” Ela serve como farol quando revisitamos aquele novembro que mudou o século. Porque a história, teimosa como é, nunca destrói algo sem plantar outra coisa no lugar. Entre os escombros do Muro, surgia uma nova paisagem global — e também uma ferida aberta na memória política de quem acreditava que a utopia era possível.

O Muro não caiu apenas em Berlim; caiu dentro de milhões. Toda aquela estrutura de concreto, vigilância e medo simbolizava uma forma de organizar o mundo. Quando veio ao chão, trouxe consigo certezas que pareciam inabaláveis. Para muitos, aquilo era libertação. Para outros, era o encerramento melancólico de um sonho que prometia justiça social. E naquele turbilhão de história, meu pensamento encontrou naturalmente a figura de Luiz Carlos Prestes, o “Cavaleiro da Esperança”, aquele que atravessou o século XX com a ousadia dos que acreditam que a dignidade humana vale qualquer sacrifício.

Como estaria Prestes diante da queda do Muro? O que sentiria ao ver o socialismo real ser desfeito tijolo por tijolo, como um gigante de pedra que lentamente se rende ao tempo? Não era difícil imaginar o peso daquele momento para um homem que dedicou a vida inteira à utopia da igualdade. No entanto, o Brasil, com seu jeito imprevisível de escrever a própria história, caminhava em direção contrária ao clima de pessimismo europeu. Enquanto o mundo decretava o fim das grandes narrativas, nós celebrávamos a primeira eleição presidencial direta em décadas. A democracia brasileira — ainda frágil, mas pulsante — renascia.

E foi nesse encontro improvável entre desilusão global e esperança nacional que testemunhei uma cena que jamais esqueci. No comício histórico da Candelária, cercado por vozes, bandeiras e um país inteiro tentando reaprender a sonhar, avistei Prestes. Lá estava ele. De pé. Firme. Vibrante. Não parecia um homem esmagado pelos escombros da queda do Muro de Berlim. Parecia o mesmo militante incansável que atravessara a Coluna, que suportara prisões, exílios, clandestinidade e sacrifícios existenciais. Ele não lamentava a morte de uma ideologia: ele semeava uma nova estação da esperança. Aquele olhar, aquela postura, aquela voz — era como se a utopia se recusasse a morrer ali, diante de mim.

Anos depois, sua filha, Anita Prestes, me revelaria um detalhe capaz de perfurar qualquer coração. Nos períodos mais sombrios da clandestinidade, quando o risco de morte rondava as portas e o país parecia respirar por aparelhos, Prestes cultivava rosas amarelas. Em cada esconderijo, ele plantava vida onde só parecia haver medo. Era como se dissesse ao mundo, em silêncio: “Mesmo perseguido, eu ainda acredito na beleza.” A imagem é tão delicada quanto devastadora — e talvez seja a melhor síntese da utopia.

Prestes partiu em março de 1990, pouco depois da queda do Muro e antes que a Alemanha enfim se reunificasse. Mas ele não nos deixou ruínas. Deixou-nos raízes. Deixou-nos as rosas. Deixou-nos uma herança emocional e política que insiste em florescer na democracia brasileira, apesar dos seus sobressaltos, apesar dos seus retrocessos. Seu legado permanece como farol nas lutas sociais, nas ruas, nos livros, nas memórias de quem não desiste do que parece impossível.

A história derruba muros. A vida derruba impérios. Mas a utopia — quando plantada no coração humano — resiste a tudo. Que aprendamos com Prestes: os espinhos existem, mas é das rosas que a vida se sustenta. E é delas que nasce a coragem para continuar.