Política e Resenha

ARTIGO – Quando a farda vê o abismo e decide recuar (Padre Carlos)

 

 

No coração do poder, onde as decisões moldam o destino de uma nação, um general fez o que muitos temiam impossível: falou. Marco Antônio Freire Gomes, ex-comandante do Exército Brasileiro, rompeu o silêncio espesso que cobria os quartéis desde o fim do governo Bolsonaro e revelou que sim — o então presidente da República apresentou uma minuta golpista aos três comandantes das Forças Armadas, com o objetivo de instaurar um estado de defesa no Tribunal Superior Eleitoral.

Não se trata de uma alegoria. É um fato concreto, confirmado em acareação com o ex-ministro da Justiça Anderson Torres. E que muda o peso das palavras “tentativa de golpe” de um mero juízo político para o campo penal, institucional e histórico.

A minuta não era uma bravata. Era um plano com potencial para virar ação. O estado de defesa, segundo nossa Constituição, é uma ferramenta excepcional para lidar com instabilidades institucionais graves — não uma ferramenta pessoal para reverter eleições.

O que vimos foi a farda resistir à toga deformada de um projeto autoritário. Freire Gomes, ao lado dos outros comandantes, recusou a proposta. Isso, por si só, impediu que o Brasil mergulhasse numa noite de arbítrio. Mas essa recusa, embora louvável, não redime o silêncio mantido por meses após o episódio. Por que só agora, quando as instituições já se reorganizam e as investigações apertam o cerco, o general resolveu falar?

É provável que o peso da história tenha finalmente gritado mais alto que a lealdade à caserna. Freire Gomes viu de perto a fronteira entre um governo eleito e um regime de exceção. E, ao contrário de outros, recuou. Mas ao dar seu testemunho agora, presta um segundo serviço à democracia: lança luz onde antes havia apenas sombra e especulação.

A pergunta que resta é: o que fará o país com essa revelação?

Já não se trata mais de narrativas opostas, mas de fatos que se cruzam com depoimentos, perícias e provas documentais. Bolsonaro discutiu abertamente um golpe. Não com militantes, mas com os chefes militares. E o fez em pleno exercício da Presidência da República. Isso é gravíssimo. Isso é golpismo. E isso exige consequência.

A Constituição de 1988 sobreviveu à sua maior crise. Mas a democracia, como bem sabemos, é frágil quando não pune os que tentam subvertê-la.

Freire Gomes, talvez tarde demais, empurrou a porta da verdade. Agora, cabe ao STF, ao Congresso e à sociedade não deixarem que ela se feche novamente.