Política e Resenha

ARTIGO – Quando a História é Pintada com Pincéis de Justiça e Memória (Padre Carlos)

 

 

Há momentos em que a história se dobra sobre si mesma e, em reverência, presta contas aos que ousaram desbravá-la com os pés descalços da coragem. Foi isso que se viu na cerimônia de entronização do quadro da prefeita Sheila Lemos na Casa Memorial Régis Pacheco, em Vitória da Conquista, nesta última segunda-feira (30). A primeira mulher eleita para comandar os destinos da cidade foi, por fim, reconhecida como parte da galeria de ex-gestores municipais. Mas o gesto, embora simbólico, não se limita ao ato protocolar: é afirmação, é reparação e é também recado político.

É preciso dizer com todas as letras: colocar o retrato de Sheila Lemos ao lado dos homens que fizeram (e desmancharam) a história desta cidade é um passo concreto na direção da igualdade de gênero e da valorização da memória histórica de Vitória da Conquista. E como os deuses da arte nunca dormem, o retrato foi pintado, também pela primeira vez, por outra mulher — a artista plástica e tatuadora Pamela Dantas. Uma mulher retratada por outra mulher. Um duplo golpe na resistência de um mundo ainda tão masculino nos símbolos do poder.

Pamela, autodidata, psicóloga e artista múltipla, deu rosto e cor à história com técnica, talento e ternura. Utilizando linguagens como óleo sobre tela, aquarela, acrílico e giz pastel oleoso, ela não apenas pintou uma figura pública — mas imprimiu sobre a tela a presença simbólica de todas as mulheres conquistenses que, ao longo do tempo, ficaram invisíveis nos corredores do poder. Esse detalhe, aparentemente simples, é uma ruptura com a tradição monocromática dos retratos oficiais.

Sheila Lemos, ao destacar o trabalho coletivo da gestão — com destaque para o número expressivo de mulheres secretárias e servidoras públicas — tocou na ferida aberta de uma cidade que, apesar de democrática nas urnas, ainda carrega traços patriarcais em sua estrutura de comando. Ao entrar na galeria dos gestores, Sheila não celebra apenas o fim de seu mandato, mas inaugura um novo tempo na representação política da mulher no sudoeste baiano.

E não é pouca coisa. Em uma cidade marcada por profundas desigualdades sociais, por um déficit crônico de reconhecimento das mulheres na política e por um conservadorismo cultural que costuma desautorizar a liderança feminina, este gesto representa um lampejo de mudança. Representa, sobretudo, o que chamaria de justiça estética: aquela que devolve à imagem pública o que foi negado na narrativa oficial.

Sheila foi entronizada, sim. Mas, mais que isso, o que se entronizou foi a imagem de uma mulher no espelho da memória institucional. E isso importa. Importa para as meninas que visitarão o Memorial Régis Pacheco. Importa para as futuras prefeitas que não mais se sentirão anomalias. Importa para uma cidade que precisa, com urgência, colocar mais quadros femininos — e menos molduras vazias — nas paredes do poder.

Se é verdade que um povo sem memória é um povo sem futuro, Vitória da Conquista, neste gesto, fez justiça ao passado e plantou sementes para um tempo em que a igualdade de gênero não será celebrada como exceção, mas vivida como regra.