Política e Resenha

ARTIGO – Quando a Liberdade Esconde a Dependência

Padre Carlos

Há alguns meses, um grande amigo me procurou para conversar. Não era sobre política, nem sobre religião. Era sobre o sofrimento da própria família. Seu irmão havia se tornado dependente das apostas on-line.

Enquanto ele falava, percebi que não estava diante de uma simples história de alguém que perdeu dinheiro. Estava diante da destruição lenta de uma pessoa. Vi o sofrimento da família, a vergonha, as promessas de que tudo iria mudar, as recaídas e a angústia de quem já não consegue controlar os próprios impulsos.

Foi acompanhando essa verdadeira via-sacra que decidi escrever este artigo.

Confesso que, até então, eu também via as apostas como uma questão de escolha individual. Pensava: “Cada um faz o que quer da própria vida.” Mas, quando conhecemos de perto o drama de uma pessoa dependente, percebemos que a realidade é muito mais complexa.

A mesma reflexão vale para as redes sociais.

Vivemos repetindo que devemos defender a liberdade de expressão, e eu continuo acreditando que ela é um dos maiores pilares da democracia. Uma sociedade sem liberdade para falar, criticar e discordar não é uma sociedade livre.

Mas comecei a me perguntar: será que toda discussão sobre liberdade termina aí?

Lembrei-me de quando surgiram as campanhas contra o cigarro. Muitos diziam que o governo não tinha o direito de interferir na decisão de quem queria fumar. O argumento era sempre o mesmo: liberdade.

Com o tempo, descobrimos que havia muito mais do que liberdade. Existia uma indústria poderosa criando estratégias para manter milhões de pessoas dependentes do tabaco.

Hoje vejo um cenário parecido.

As plataformas digitais e as empresas de apostas também vivem da permanência das pessoas em seus sistemas. Quanto mais tempo você passa olhando a tela, rolando vídeos, esperando uma nova notificação ou fazendo uma nova aposta, maior é o lucro dessas empresas.

Isso não acontece por acaso.

Psicólogos, cientistas e especialistas em tecnologia trabalham para entender como prender nossa atenção.

Aprendi outra coisa importante durante essa reflexão. A dopamina, muitas vezes chamada de “hormônio do prazer”, na verdade funciona principalmente como um combustível da expectativa. Ela nos faz procurar sempre a próxima recompensa. É ela que nos leva a pensar: “Só mais uma aposta”, “Só mais um vídeo”, “Só mais uma olhada no celular.”

E assim o ciclo nunca termina.

Foi exatamente isso que vi acontecer com o irmão do meu amigo.

Ele não precisava apenas de dinheiro. Precisava recuperar o controle da própria vida.

Então comecei a pensar que talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

O debate não deveria ser apenas sobre liberdade.

Deveria ser também sobre responsabilidade.

Ninguém quer censurar opiniões ou impedir as pessoas de se expressarem. A liberdade de expressão continua sendo um direito fundamental que precisa ser protegido.

Mas liberdade não pode servir de desculpa para modelos de negócios construídos sobre a dependência humana.

As bets retiram o dinheiro das famílias.

As redes sociais, muitas vezes, retiram algo ainda mais precioso: o tempo, a paz, a concentração, o convívio familiar e até a saúde emocional.

A liberdade é um bem precioso.

Mas ela deixa de existir quando alguém perde a capacidade de escolher.

Foi olhando o sofrimento daquela família que compreendi isso.

A dependência não prende apenas quem aposta ou quem passa horas diante da tela. Ela aprisiona pais, mães, esposas, maridos, filhos e amigos, que assistem, impotentes, à transformação de alguém que amam.

Talvez seja hora de entendermos que defender a liberdade não significa fechar os olhos para quem lucra explorando a fragilidade das pessoas.

Uma sociedade realmente livre não é aquela que permite tudo em nome da liberdade. É aquela que protege a liberdade sem abandonar a responsabilidade, a dignidade humana e o direito de cada pessoa viver sem ser escrava de mecanismos criados para capturar sua atenção, seu dinheiro e sua própria vontade.