Política e Resenha

ARTIGO – Quando a notícia abandona a imparcialidade e veste a camisa da militância

 

Padre Carlos

O jornalismo tem uma missão nobre: informar. O articulismo tem outra: interpretar. Quando essas duas funções se misturam sem transparência, o leitor deixa de receber informação e passa a consumir narrativa. É justamente essa impressão que a matéria em questão transmite.

Embora relate um fato objetivo — a decisão do Tribunal Regional Eleitoral da Bahia que manteve o vereador Diogo Azevedo no mandato até o julgamento definitivo —, o texto extrapola a descrição dos acontecimentos e passa a emitir juízos de valor, utilizando uma linguagem carregada de interpretações políticas e conclusões que não decorrem necessariamente dos fatos apresentados.

Logo no primeiro parágrafo, o repórter afirma que a decisão “frustrou a articulação da prefeita Sheila Lemos”. Essa afirmação já não é um fato comprovado na decisão judicial. Trata-se de uma interpretação política atribuída ao episódio. Para sustentá-la, seria necessário apresentar documentos, declarações ou evidências concretas que demonstrassem essa suposta articulação e sua efetiva frustração.

Ao longo da matéria, essa postura interpretativa se intensifica.

Expressões como:

  • “ameaça de perder de imediato e briga judicial”;
  • “outro espetáculo”;
  • “foi pressionado”;
  • “recebeu oferta para assumir uma secretaria”;
  • “foi advertido”;
  • “o roteiro também não é novo”;
  • “o método é familiar”;
  • “rapidamente passa de companheiro a obstáculo”;
  • “TRF-BA interrompeu a operação”;
  • “impôs uma derrota política à Sheila Lemos”;
  • “expõe mais uma rachadura na campanha de ACM Neto”;

não pertencem ao vocabulário do jornalismo estritamente informativo. São construções típicas de textos opinativos, cuja finalidade é conduzir o leitor a determinada interpretação.

O problema não é o jornalista possuir opinião. Todo cidadão possui.

O problema surge quando essa opinião aparece disfarçada de reportagem.

Observe que praticamente todos os personagens recebem tratamento distinto.

Quando a matéria fala de Diogo Azevedo, ele aparece como alguém que sofre pressão, perseguição e ameaças.

Quando menciona Sheila Lemos, a prefeita surge associada a expressões como “articulação”, “pressão”, “derrota política”, “rachadura”, criando uma sequência narrativa negativa.

Já ACM Neto aparece constantemente vinculado à ideia de divisão, erro estratégico e perda de aliados.

Essa construção narrativa não é neutra.

Ela estabelece um enquadramento (framing) bastante conhecido nos estudos de comunicação: selecionam-se fatos verdadeiros, mas eles são organizados de forma que conduzam o leitor a uma conclusão previamente desejada.

Outro aspecto chama atenção.

A decisão judicial é cautelar.

Não houve julgamento definitivo.

Mesmo assim, o texto conclui que houve uma “derrota política” para Sheila Lemos.

Essa conclusão não decorre automaticamente da decisão do TRE.

É perfeitamente possível que o julgamento final mantenha ou reforme a liminar.

Portanto, transformar uma decisão provisória em derrota política definitiva é uma interpretação do jornalista, não um fato jurídico.

Há ainda uma curiosidade na estrutura do texto.

Em nenhum momento são apresentados contrapontos relevantes da prefeita, de sua assessoria ou de lideranças do União Brasil que possam equilibrar a narrativa.

O leitor recebe praticamente uma única moldura interpretativa.

Isso empobrece o debate público.

O jornalismo profissional busca ouvir todos os lados justamente para evitar que a reportagem se transforme em peça de convencimento político.

Outro recurso perceptível é o uso de metáforas.

Quando o repórter escreve que “o método é familiar” e que “quem decide construir projeto próprio rapidamente passa de companheiro a obstáculo”, ele abandona completamente o campo da notícia e entra na análise política — ou até mesmo na crônica opinativa.

Não há problema em escrever análises.

O problema surge quando elas são apresentadas sob a aparência de reportagem factual.

Em democracias maduras, a imprensa exerce papel essencial na fiscalização do poder.

Mas essa missão exige equilíbrio.

Criticar governantes faz parte do jornalismo.

Construir narrativas orientadas por preferências ideológicas, entretanto, compromete a credibilidade da informação.

Uma reportagem deve permitir que o leitor forme sua própria opinião.

Quando o texto já entrega uma interpretação pronta, utilizando adjetivos, metáforas e conclusões políticas sem a devida separação entre fato e comentário, a fronteira entre jornalismo e militância torna-se tênue.

A liberdade de imprensa é um dos pilares da democracia.

Mas ela caminha lado a lado com outro princípio igualmente importante: a responsabilidade editorial.

O bom jornalismo não precisa convencer ninguém.

Basta apresentar os fatos com precisão, contexto e pluralidade.

Quando a notícia passa a carregar excessivamente a visão de quem a escreve, deixa de ser apenas informação e passa a disputar espaço com o ativismo político. E, nesse momento, quem perde não é apenas um governo, um partido ou um adversário. Quem perde é o leitor, que tem o direito de receber informação equilibrada para construir, por si mesmo, suas próprias conclusões.