
(Padre Carlos)
Há palavras que não nascem para explicar, mas para proteger. Funcionam como escudos retóricos, lançados quando os argumentos se esgotam e o desconforto se instala. “Proselitismo político” é uma dessas palavras. Foi ela a escolhida por um deputado de Vitória da Conquista para rebater críticas legítimas da oposição sobre o endividamento do governo da Bahia. Como se questionar R$ 26 bilhões em empréstimos públicos, pagos com o suor do povo baiano, fosse apenas um jogo menor de retórica partidária.
Essa inversão de sentidos não é apenas desonesta. Ela é dolorosa. Porque toca uma ferida antiga da democracia brasileira: a tentativa recorrente de silenciar o questionamento público por meio da desqualificação moral de quem pergunta.
Vinte e dois pedidos de empréstimo. Repita esse número com calma. Vinte e dois. Em sucessivas idas às instituições financeiras, o governador Jerônimo Rodrigues comprometeu o futuro de gerações inteiras. Em novembro, sob o argumento da urgência — palavra frequentemente usada para atropelar o debate — mais R$ 2,9 bilhões foram solicitados. O problema não é apenas o volume da dívida pública estadual, que já pesa como nuvem carregada antes da tempestade. O que fere é a opacidade, a falta de transparência, a ausência de explicações claras sobre a destinação desses recursos.
Onde será aplicado esse dinheiro? Quais políticas públicas serão efetivamente fortalecidas? Quais regiões serão beneficiadas? Quais gerações pagarão a conta? O silêncio do governo da Bahia diante dessas perguntas básicas é ensurdecedor. E silêncio, em política, nunca é neutro.
Mas a contradição se torna ainda mais gritante quando olhamos para o próprio quintal. O mesmo deputado que acusa a oposição de “proselitismo político” parece esquecer — ou escolhe esquecer — que, em Vitória da Conquista, sua adversária política, a prefeita Sheila Lemos, solicitou autorização da Câmara Municipal para contratar R$ 400 milhões em empréstimos. E aqui reside o ponto central que desmonta o discurso fácil.
Não se trata de condenar o endividamento público em si. Dívida pode ser instrumento legítimo de desenvolvimento quando acompanhada de planejamento, clareza e controle social. A prefeita foi objetiva: mobilidade urbana, saneamento básico, infraestrutura. Obras visíveis, mensuráveis, capazes de transformar a vida cotidiana da população. Há diferença profunda — quase moral — entre endividar-se com propósito declarado e endividar-se no escuro. Entre apresentar um plano e pedir carta branca. Entre respeitar o cidadão e tratá-lo como figurante.
O verdadeiro proselitismo político não está em fiscalizar. Está em confundir deliberadamente. Está em acusar o outro daquilo que se pratica. Está em defender transparência no município e blindar a opacidade no Estado. Está em transformar a fiscalização — dever constitucional da oposição e direito do cidadão — em pecado ideológico.
Proselitismo é usar palavras como fumaça para esconder números. É tentar convencer o povo de que perguntar é crime, de que desconfiar é deslealdade, de que exigir prestação de contas é sabotagem política. É infantilizar a sociedade e esperar aplausos.
Este artigo é, antes de tudo, um convite à lucidez. Não podemos aceitar que nos roubem o direito de perguntar. Não podemos permitir que o debate sobre endividamento público, dívida estadual, empréstimos bilionários e transparência governamental seja interditado por rótulos vazios. Democracia não combina com medo da pergunta. Combina com resposta.
Vitória da Conquista deu explicações. O governo da Bahia ainda deve as suas. E ao deputado que escolheu a palavra “proselitismo” como escudo, fica um lembrete simples: as palavras têm memória. A história registra não apenas o que foi dito, mas também o que se tentou esconder.
No fim, não se trata de PT ou oposição. Trata-se de transparência ou opacidade, de respeito ou descaso, de democracia ou autoritarismo disfarçado.
E essas escolhas — que pesam tanto quanto bilhões em dívidas — não admitem relativização.




